“Hipercarnívoros”, mas não tanto: Cientistas registam, pela primeira vez, mabecos a comer frutos

Uma dupla de investigadores diz ter documentado, pela primeira vez, um comportamento inesperado nos mabecos, apontando para uma flexibilidade que poderá ser benéfica para esta espécie ameaçada de extinção.

Filipe Pimentel Rações

Os mabecos (Lycaon pictus) são considerado “hipercarnívoros” por se alimentaram exclusivamente de outros animais e por terem uma dentição altamente especializada nesse tipo de alimentação.

Pelo menos era essa a ideia, até que uma dupla de investigadores da organização Wild Entrust Africa ter descoberto algo inesperado no norte do Botsuana.

Durante 27 dias em 2022 (entre 29 de julho e 24 de agosto), a equipa observou uma alcateia de mabecos, nas margens do Delta do Okavango, a alimentar-se de frutos de ébano-de-zanzibar (Diospyros mespiliformis). Num artigo publicado na revista ‘Canid Biology & Conservation’, os autores Megan Claase e John McNutt dizem que até esse momento nenhum outro estudo havia documentado o consumo de frutos por mabecos.

O grupo era composto por seis adultos e cinco jovens com mais de um ano e os investigadores observaram-nos não apenas a consumir os frutos, mas a procurá-los ativamente. Os mabecos, segundo as descrições, pegavam nos frutos, com dois a três centímetros de diâmetro, com os dentes incisivos e engoliam-nos praticamente inteiros.

Mabeco a comer frutos de ébano-de-zanzibar, no delta do Okavango, no Botsuana. Foto: Megan Claase.

Todos os membros da alcateia foram vistos a consumir os frutos e maioria das observações, cerca de 80%, aconteceram perto da toca dos mabecos e momentos antes de o grupo partir para a caça. Isso poderá sugerir que é uma forma de obterem energia antes de saírem em busca de presas.

Os autores argumentam ainda que os mabecos podem estar a consumir os frutos do ébano-de-zanzibar pelas suas propriedades medicinais, há muito conhecidas e usadas pelos humanos.

O consumo dos frutos coincidiu também com uma altura em que a alcateia está a ajudar a cuidar das crias, pelo que, sugerem os investigadores, ao comerem frutos estão a obter alimento adicional para fornecer aos elementos mais novos do grupo.

Muitas hipóteses estão ainda no ar quanto ao “porquê” de os mabecos comerem frutos, quebrando a ideia longeva de que se trata de uma espécie de “hipercarnívoros”.

O mesmo tipo de comportamento tinha já sido observado no ano anterior a este estudo uma alcateia vizinha à que neste artigo é descrita, bem como em 2013 numa alcateia a cerca de 23 quilómetros para leste do delta. No entanto, esses comportamentos não foram documentados, pelo que os autores souberam deles por comunicações diretas que lhes foram feitas pelas pessoas que viram esses comportamentos em primeira-mão.

Os investigadores sugerem que o consumo de frutos pode ser um comportamento aprendido pelos mabecos e não algo inato, o que, dizem, ajudaria a explicar por que razão só agora se conseguiu documentá-lo e por que razão parece ser limitado no espaço.

Mabecos em busca dos frutos. Foto: Megan Claase.

Claase e McNutt escrevem que este estudo revela a importância de se estudar o comportamento dos animais em vários habitats e ecossistemas, uma vez que só dessa forma é possível descobrir coisas inesperadas, mas ainda assim relevantes, sobre como os animais lidam com alterações na disponibilidade de alimento e também com os efeitos das alterações climáticas.

Os mabecos estão classificados como espécie “Em Perigo” de extinção na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza. Em tempos abundantes em grande parte da África subsariana, têm atualmente a sua maior área de distribuição no Botsuana e na Namíbia, mas também estão presentes em Angola, na Zâmbia, em Moçambique, na Tanzânia, no Quénia e na República Centro Africana.

Entre as principais ameaças estão a perda de habitat, os conflitos com humanos e a perda de presas selvagens, pelo que esta flexibilidade alimentar dá aos investigadores alguma esperança, uma vez que poderá ajudar os mabecos a adaptarem-se melhor a alterações ambientais e ecológicas que podem tornar ainda mais incerto o seu futuro.

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