Hospitais mais verdes: tecnologia portuguesa corta consumo energético sem afetar doentes

Em entrevista à Green Savers, Filipa Rapazote, Head of Enterprise Services da Siemens Healthineers Portugal, e Gonçalo Leal, Head of Medical Imaging Strategy and Operations da Luz Saúde, falam sobre o projeto ActGreen, uma iniciativa que procura tornar mensurável o impacto da tecnologia na redução da pegada ambiental dos hospitais, sem comprometer a qualidade clínica nem a experiência do doente.

Ana Filipa Rego

Uma parceria entre a Siemens Healthineers e a Luz Saúde deu origem ao projeto ActGreen, uma iniciativa que procura tornar mensurável o impacto da tecnologia na redução da pegada ambiental dos hospitais, sem comprometer a qualidade clínica nem a experiência do doente.

Em entrevista à Green Savers, Filipa Rapazote, Head of Enterprise Services da Siemens Healthineers Portugal, explica que o projeto nasceu da necessidade de transformar soluções tecnológicas já existentes em dados concretos e transparentes sobre eficiência energética. Através de uma metodologia robusta, foi possível medir consumos reais e isolar o impacto de ferramentas como a inteligência artificial, permitindo quantificar ganhos ambientais e operacionais até então pouco visíveis no dia a dia hospitalar.

Já Gonçalo Leal, Head of Medical Imaging Strategy and Operations da Luz Saúde, destaca que a implementação do ActGreen permitiu reduzir significativamente o consumo energético dos exames de ressonância magnética, graças à automatização inteligente dos equipamentos. Os resultados superaram as expectativas, com poupanças de energia até 46% em períodos não produtivos e uma redução anual de mais de 200 MWh, ao mesmo tempo que melhoraram o conforto dos doentes, com tempos de exame mais curtos e uma experiência mais eficiente.

Como surgiu a ideia para o projeto ActGreene que necessidade concreta pretendiam responder no momento em que esta parceria foi desenhada?

Filipa Rapazote, Head of Enterprise Services, Siemens Healthineers Portugal

O projeto ActGreen vem no seguimento de uma visão partilhada e de um alinhamento muito consistente entre a Siemens Healthineers e a Luz Saúde no que respeita à eficiência da utilização dos recursos e a sustentabilidade da prestação de cuidados de saúde. Apesar de muitos dos produtos e soluções da Siemens Healthineers já integrarem funcionalidades orientadas para a utilização eficiente de recursos e para a redução da pegada ecológica, o seu impacto real no dia a dia dos hospitais não era plenamente visível, nem quantificável. No momento em que esta parceria foi desenhada, existia uma necessidade concreta de transformar essa eficiência tecnológica em dados objetivos e transparentes, que permitisse compreender, medir e valorizar o contributo das soluções de poupança energética e de Inteligência Artificial para a sustentabilidade dos hospitais.

Que desafios encontraram na fase inicial de implementação, tanto do ponto de vista tecnológico como organizacional?

Filipa Rapazote, Head of Enterprise Services, Siemens Healthineers Portugal

Na fase inicial, os principais desafios passaram pela criação de uma metodologia tecnológica robusta para medir consumos energéticos reais e isolar o impacto específico das soluções implementadas, bem como pelo alinhamento organizacional entre equipas clínicas, técnicas e de gestão, para, numa primeira fase, agilizar a instalação da solução e, mais tarde, garantir a confiança nos dados e integração do projeto na rotina hospitalar.

De que forma conseguiram reduzir o consumo energético dos exames de Ressonância Magnética sem comprometer a qualidade clínica ou a experiência do doente?

Gonçalo Leal, Head of Medical Imaging Strategy and Operations, Luz Saúde

A Luz Saúde conseguiu reduzir de forma significativa o consumo energético dos exames de Ressonância Magnética no primeiro piloto do projeto, que foi realizado com 10 equipamentos de Ressonância Magnética, permitindo validar o impacto real da solução em ambiente clínico. Face aos resultados obtidos, o projeto foi posteriormente escalado para um conjunto mais abrangente de equipamentos e unidades do grupo, alargando de forma consistente os benefícios energéticos e operacionais.

A redução do consumo foi alcançada através da automatização inteligente da gestão energética dos equipamentos, eliminando consumos desnecessários fora dos períodos de atividade clínica, sem qualquer alteração aos protocolos diagnósticos ou à qualidade das imagens. No que respeita à experiência do doente, esta não só não foi comprometida como foi claramente melhorada, uma vez que numa parte significativa dos exames foi possível reduzir o tempo de aquisição, o que se traduz em menos tempo do doente dentro da máquina e num maior conforto e tranquilidade durante o exame.

Os resultados alcançados superaram as expectativas iniciais? Podem partilhar alguns indicadores concretos do impacto ambiental obtido?

Filipa Rapazote, Head of Enterprise Services, Siemens Healthineers Portugal

Sim, os resultados obtidos superaram as expectativas em vários dos paramêtros analisados. Este projeto permitiu identificar e quantificar de forma precisa os consumos energéticos dos sites envolvidos, tendo em conta as suas condições específicas. Destaca-se um potencial de poupança energética na ordem dos 46% durante os períodos não produtivos, o que corresponde a uma poupança anual de 203,4 MWh, à redução de 33,66 toneladas de CO₂, a uma economia aproximada de 25.000€ em custos energéticos e ao equivalente a 2.240 árvores necessárias para compensar as emissões associadas aos equipamentos. Adicionalmente, foi identificado um potencial de redução de até 60% no consumo energético dos exames realizados com a nossa solução de Inteligência Artificial. Estes resultados  permitiram alcançar ganhos reais com impacto a nível operacional e ambiental nas unidades incluídas no projeto, reforçando também o alinhamento estratégico entre as duas organizações quanto à importância e interligação entre  inovação tecnológica e sustentabilidade. Sabemos que ainda há um caminho a percorrer e que é um caminho feito de colaboração, lado a lado com os nossos parceiros. E o objetivo é claro – gerar valor real e mensurável para as instituições de saúde e para os cuidados ao paciente,  que colocamos sempre no centro de todas as decisões.

Que benefícios operacionais trouxe esta redução da pegada de carbono para a gestão hospitalar no dia a dia?

Gonçalo Leal, Head of Medical Imaging Strategy and Operations, Luz Saúde

Além da poupança direta nos custos energéticos e de uma maior previsibilidade do consumo, o principal benefício operacional foi o facto de esta iniciativa ser praticamente transparente para os profissionais de saúde das unidades da Luz Saúde. Os profissionais de saúde são altamente diferenciados e lidam diariamente com tarefas clínicas complexas e críticas, pelo que alterações significativas aos seus métodos de trabalho poderiam resultar em perda de produtividade ou no risco de descurar aspetos relevantes da atividade assistencial.

Neste contexto, uma estratégia que implicasse pouca ou nenhuma mudança comportamental, mas que tivesse um impacto positivo real e mensurável, revelou-se essencial. A automatização e integração silenciosa da solução permitiram alcançar ganhos ambientais e operacionais relevantes sem introduzir fricção na prática clínica diária, fator decisivo para a aceitação, eficácia e escalabilidade do projeto.

Na vossa perspetiva, este projeto teve também impacto na sensibilização interna das equipas para as questões da sustentabilidade?

Gonçalo Leal, Head of Medical Imaging Strategy and Operations, Luz Saúde

Na perspetiva da Luz Saúde, o projeto teve um impacto positivo na sensibilização interna para a sustentabilidade. A visibilidade clara e objetiva dos resultados alcançados veio acrescentar uma dimensão muito relevante ao que já é a missão intrínseca de quem trabalha na área da saúde: cuidar das pessoas e melhorar a sua qualidade de vida. Poder aliar esta missão à da sustentabilidade ambiental reforça o sentido de propósito das equipas, demonstrando que é possível proteger a saúde das populações hoje sem comprometer a saúde do planeta no futuro. Esta associação entre impacto clínico e impacto ambiental contribuiu para consolidar a sustentabilidade como um valor integrado na cultura organizacional.

O facto de o ActGreen ter sido distinguido com o Prémio Inovação em Saúde 2025 veio reforçar a importância da agenda ambiental no setor da saúde em Portugal?

Filipa Rapazote, Head of Enterprise Services, Siemens Healthineers Portugal

Sem dúvida, esta distinção do Prémio Inovação em Saúde 2025 veio reforçar a relevância da agenda ambiental no setor da saúde em Portugal, validando a sustentabilidade como um pilar estratégico da inovação e incentivando outras instituições a seguirem o mesmo caminho.

Consideram que este modelo de parceria pode ser replicado noutros exames, tecnologias ou instituições de saúde, em Portugal ou internacionalmente?

Filipa Rapazote, Head of Enterprise Services, Siemens Healthineers Portugal

Sim, este modelo de parceria é altamente replicável, podendo ser adaptado a outros exames, tecnologias de diagnóstico e instituições de saúde, tanto em Portugal como a nível internacional, sempre que exista a ambição de conjugar inovação, eficiência operacional e sustentabilidade na prestação de cuidados de saúde. Como referido acima, este modelo de monitorização começou a ser implementado como um projeto-piloto e encontra-se já atualmente em fase de expansão para todas as unidades do grupo Luz Saúde. O que demonstra e reforça a sua escalabilidade e impacto real.

Que papel pode a tecnologia desempenhar, nos próximos anos, no equilíbrio entre eficiência clínica, sustentabilidade ambiental e controlo de custos? Olhando para o futuro, como veem a evolução da agenda ESG no setor da saúde e que responsabilidades acrescidas terão as organizações nesta matéria?

Gonçalo Leal, Head of Medical Imaging Strategy and Operations, Luz Saúde

Entendemos que a tecnologia será um dos principais catalisadores de uma abordagem ESG madura e integrada no setor da saúde, ultrapassando claramente a dimensão ambiental e assumindo um papel estruturante também nas vertentes social e de governança. No plano operacional, a tecnologia permite hoje e permitirá cada vez mais uma utilização mais eficiente e solidária dos recursos disponíveis, como é o caso da rotação de equipamentos entre unidades hospitalares. Esta prática, que a Luz Saúde promove há muitos anos, assegura a continuidade e equidade no acesso a linhas clínicas assistenciais em diferentes geografias, permitindo que unidades que de outra forma não teriam determinada capacidade tecnológica possam prestar cuidados diferenciados às suas populações, reforçando a coesão do sistema de saúde.

No âmbito da sustentabilidade ambiental e económica, a incorporação de critérios ESG nos concursos de aquisição de tecnologia médica assume um papel crescente. Para além do desempenho clínico, fatores como eficiência energética, ciclo de vida do equipamento, capacidade de atualização tecnológica e impacto ambiental tornam-se elementos centrais na decisão. Esta lógica permite privilegiar modelos de evolução contínua da tecnologia, evitando o abate prematuro de equipamentos que mantêm plena utilidade clínica, reduzindo desperdício, emissões associadas à produção e pressão sobre investimentos de capital.

É necessário existir uma gestão responsável de recursos escassos, como por exemplo os meios de contraste iodado, através de sistemas que permitem monitorizar consumos, otimizar protocolos e reduzir desperdícios, reforçando simultaneamente a segurança do doente e a resiliência das organizações face a constrangimentos de mercado ou de abastecimento.

Do ponto de vista social, a agenda ESG no setor da saúde estará cada vez mais ligada a temas como acesso equitativo aos cuidados, segurança do doente, valorização e proteção dos profissionais de saúde e impacto positivo nas comunidades onde as organizações estão inseridas. A tecnologia pode apoiar este caminho ao reduzir a carga administrativa, melhorar fluxos de trabalho, diminuir o risco de erro ajudando a mitigar o desgaste profissional num setor particularmente exigente.

Na dimensão da governança, a evolução será igualmente significativa. As organizações de saúde terão responsabilidades acrescidas ao nível da transparência, da monitorização de indicadores ESG, do reporte estruturado e da integração destes critérios nos processos de decisão estratégica. A tecnologia permitirá suportar modelos de governação mais informados, baseados em dados fiáveis, auditáveis e comparáveis, reforçando a confiança dos stakeholders, dos profissionais, dos reguladores e da sociedade em geral.

Encaramos a agenda da sustentabilidade como um eixo estratégico indissociável da nossa missão assistencial. O futuro passará por organizações capazes de conjugar inovação clínica, responsabilidade social, sustentabilidade ambiental e uma governação sólida, utilizando a tecnologia não como um fim em si mesmo, mas como um instrumento ao serviço de cuidados de saúde.

 

 

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