A proliferação de espécies exóticas invasoras, introduzidas, intencionalmente ou não, fora da sua área de ocorrência natural e que competem com as espécies locais, é considerada uma das grandes ameaças à biodiversidade global.
Contudo, a avaliação dos impactos tem sido desequilibrada, com a maior parte dos estudos a ser feita em países do Norte Global, como na América do Norte e na Europa, deixando de fora o Sul Global, onde os impactos podem ser muito maiores.
Num artigo publicado recentemente na revista ‘Science’, investigadores da Suíça, República Checa e Alemanha argumentam que no Sul Global as espécies exóticas invasoras causam danos “significativamente mais elevados” do que no Norte Global. E explicam que isso se deve à combinação de um rápido crescimento económico com uma fraca capacidade para prevenir e responder a invasões biológicas.
Para chegarem a essa conclusão, o trio de cientistas, em vez de apenas contar as espécies invasoras, criou uma nova métrica a que deram o nome de “gravidade média do impacto”, que relaciona o número de impactos graves, como extinções locais de populações endémicas, com todos os impactos ecológicos locais reportados.
Os investigadores acreditam que, com essa abordagem, é possível ter uma compreensão mais clara e aprofundada dos reais impactos das espécies invasoras na biodiversidade do planeta. Embora o número de espécies invasoras reportadas seja maior no Norte Global, a gravidade relativa dos impactos, explicam, é mais pronunciada no Sul Global.
“As espécies invasoras que causam danos tanto no Sul Global como no Norte Global causam 50% mais danos em países do Sul Global comparativamente ao Norte Global”, esclarece Hanno Seebens, da Justus Liebig University Giessen e coautor do estudo.
“Especialmente em economias emergentes da América do Sul, África e Ásia, as invasões frequentemente têm consequências ecológicas catastróficas”, acrescenta.
Altas taxas de crescimento económico e um intenso comércio global, que promovem a introdução de novas espécies, conjugada com estruturas estatais pouco desenvolvidas, com elevados níveis de corrupção e fraca capacidade para lidar com invasões biológicas, tornam os países do Sul Global particularmente vulneráveis aos impactos das espécies invasoras, destacam os investigadores.
“Embora os países do Norte Global tenham muitas espécies invasoras, a gestão intensiva dos ecossistemas impede que tenham impactos massivos”, diz Sven Bacher, da Universidade de Friburgo e primeiro autor do artigo.
“Em contraste, o crescente potencial económico das economias emergentes funciona como um acelerador para a introdução de espécies invasoras, enquanto a capacidade institucional para responder fica aquém”, sublinha.
Os investigadores dizem que a prevenção é a melhor forma de evitar os impactos das invasões biológicas, mas que isso exige estruturas eficazes de gestão de ecossistemas em todos os países e “cooperação internacional intensiva”.
“Se quisermos superar a crise global da biodiversidade, temos de colmatar o fosso em matéria de gestão entre o Norte e o Sul e deixar de marginalizar as regiões mais afetadas pelas espécies invasoras”, sentencia Bacher.









