Invernos mais curtos e mais quentes na Europa estão a empurrar estes morcegos cada vez mais para norte



A hibernação é uma das estratégias desenvolvidas, ao longo de milhares de anos de evolução, por alguns animais não-humanos para conseguirem sobreviver quando as condições ambientais não são as melhores.

Não acontece apenas quando está frio, como podemos pensar, mas também em períodos de grande calor e de escassez de alimento. É uma forma de os animais se manterem seguros, de evitarem gastos de energia quando as fontes de reabastecimento são poucas e de impedirem um stress biológico grave que pode ter resultados graves, incluindo a morte.

Seja como for, a temperatura é um fator de peso para os animais hibernantes, pelo que é de esperar que venham a sofrer de uma forma única, diferente de outros seres vivos, num planeta cada vez mais quente.

Algumas espécies de morcegos fazem parte desse grupo dos que “desligam o sistema” para enfrentarem condições adversas. Uma equipa de investigadores quis perceber como é que invernos mais curtos e mais quentes podem afetar a vida desses mamíferos alados. Para tal, focaram os seus esforços numa espécie europeia: o morcego-arborícola-grande (Nyctalus noctula).

A espécie é considerada rara em Portugal, embora, segundo o mais recente Livro Vermelho dos Mamíferos de Portugal Continental, de 2023, “a presença de fêmeas maturas na época de reprodução sugere uma população estabelecida e capaz de se reproduzir em território nacional”.

A investigação, liderada pelo Instituto Leibniz para a Investigação Zoológica e de Vida Selvagem (Alemanha), queria saber quanto tempo os morcegos-arborícolas-grandes passam num estado de torpor, o nome dado ao estado de dormência em que os animais mergulham durante a hibernação. E sobretudo perceber de que forma esse estado é afetado pela temperatura ambiente.

“Para detetar o torpor, medimos a temperatura da pele, porque os indivíduos reduzem a sua temperatura corporal para poupar energia”, explica, em comunicado, Shannon Currie, especialista em fisiologia dos morcegos e uma das principais autoras do artigo que dá conta dos resultados da investigação.

Os cientistas recolheram 24 machos que hibernavam na região de Brandeburgo, na Alemanha, em novembro de 2018. Sem os despertar do torpor, levaram-nos para laboratórios, onde puderam testar os efeitos de variações de temperatura ambiente na hibernação dos animais.

Com base em dados de temperatura do último século na Europa, percebeu-se que a área de hibernação dos morcegos-arborícolas-grandes moveu-se em direção ao nordeste europeu, entre 1901 e 2018, levando a uma expansão de 6,3% da sua área original durante esse período.

Pegando em projeções climáticas até ao final do século, tudo indica que a área de hibernação dessa espécie continuará a expandir-se na mesma direção, o que poderá aumentá-la entre 5,8% e 14,2% até 2099, dependendo de como progredir o aquecimento do planeta.

No pior dos cenários climáticos, em que as emissões de gases com efeito de estufa continuam a aumentar, as temperaturas de inverno sobem em média 2,35 graus Celsius e a época de hibernação é reduzida em 41 dias, a deslocação das áreas de hibernação para norte pode chegar aos 730 quilómetros (km) nos próximos 70 anos. Se isso acontecer, em dois séculos a área de hibernação dos morcegos-arborícolas-grandes na Europa ter-se-á movido cerca de 990 km para norte.

Os cientistas acreditam, com base em estudos anteriores, que a espécie é capaz de se adaptar a invernos mais curtos, movendo-se para latitudes mais elevadas, em busca de regiões mais frescas com invernos mais longos. No entanto, há preocupações. Não se sabe ao certo se nos novos locais de hibernação os morcegos encontrarão os alimentos que precisam de ingerir antes de entrarem no “sono profundo” nem se lá existem locais apropriados para hibernarem.

A equipa acredita que esta investigação ajudará a aprofundar o conhecimento sobre como esta espécie está a enfrentar os efeitos das alterações climáticas e a conceber estratégias de conservação mais precisas e eficazes.






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