Investigação mapeia pela primeira vez a vulnerabilidade dos peixes de água doce na Europa

Este trabalho, desenvolvido por uma equipa de investigadores do Laboratório Associado TERRA, do Instituto Superior de Agronomia da Universidade de Lisboa, representa um marco científico: é a primeira vez que uma análise de vulnerabilidade desta natureza é realizada a uma escala pan-europeia utilizando uma resolução espacial tão elevada.

Redação

Os rios europeus albergam mais de 600 espécies nativas de peixes de água doce, mas cerca de metade destas espécies enfrenta sérios riscos de conservação. Num momento em que a pressão humana e as alterações climáticas ameaçam a integridade dos ecossistemas aquáticos, um novo estudo publicado na revista Aquatic Conservation: Marine and Freshwater Ecosystems revela, com um detalhe nunca antes alcançado, quais as comunidades de peixes mais vulneráveis em todo o continente.

Este trabalho, desenvolvido por uma equipa de investigadores do Laboratório Associado TERRA, do Instituto Superior de Agronomia da Universidade de Lisboa, representa um marco científico: é a primeira vez que uma análise de vulnerabilidade desta natureza é realizada a uma escala pan-europeia utilizando uma resolução espacial tão elevada. Ao contrário de estudos anteriores focados em grandes bacias hidrográficas, esta investigação utilizou as “Unidades de Restauro de Rios” (R2U), permitindo analisar de forma homogénea e detalhada.

“Aumentar a escala espacial da análise e utilizar uma resolução que permita identificar problemas ao nível das unidades de restauro (R2U) é crucial para desenhar estratégias de conservação eficazes”, destacam os autores, sublinhando que esta abordagem permite alinhar as metas de biodiversidade com as práticas de restauro local. Este estudo teve em conta 516 espécies nativa e calculou a vulnerabilidade da comunidade para mais de 16000 unidades de restauro.

Sul da Europa em Alerta Vermelho

Os resultados demonstram que as comunidades de peixes mais ameaçadas se concentram predominantemente nas biorregiões Mediterrânica e Anatoliana. As bacias hidrográficas das penínsulas Ibérica, Adriática e Balcânica, bem como o sul da Turquia, apresentam os índices de vulnerabilidade mais elevados. Esta fragilidade deve-se, em grande parte, à elevada taxa de endemismo (espécies que só existem naquelas regiões) e à distribuição geográfica restrita destas comunidades, que se encontram sob forte stress devido a alterações climáticas e pressões antropogénicas. Em contraste, as comunidades mais biodiversas foram encontradas na Europa Central, em bacias como a do Danúbio, Volga e Dnieper, embora a maior riqueza de espécies nestas zonas resulte, geralmente, num índice de vulnerabilidade menor em comparação com o sul da Europa.

Ciência ao serviço das políticas europeias

O estudo surge num contexto decisivo para a conservação da natureza, apoiando diretamente as metas da Estratégia de Biodiversidade da UE para 2030 e a recém-aprovada Lei do Restauro da Natureza, que prevê a recuperação de 25.000 km de rios europeus para o seu estado de fluxo livre.

Ao integrar dados da Lista Vermelha da UICN com a base de dados RivFISH, a equipa oferece uma ferramenta fundamental para que decisores políticos e gestores possam priorizar intervenções onde a biodiversidade está mais ameaçada.

O estudo foi financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) através do projeto “Dammed Fish”.

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