Milhares de pessoas chegam à praia para assistir a um festival de música. Mas o que acontece quando o último concerto termina? A resposta pode ser decisiva para proteger os ecossistemas costeiros. Um estudo desenvolvido por investigadores do MARE – Centro de Ciências do Mar e do Ambiente, com a coordenação de Zara Teixeira da Universidade de Évora e do Laboratório Associado ARNET, e publicado na revista Environmental Monitoring and Assessment, mostra que as limpezas pós-evento continuam a ser insuficientes para eliminar as zonas críticas ou impedir a dispersão de resíduos. Conhecer com precisão os locais onde o lixo se acumula permite planear melhor as intervenções e reduzir o impacto ambiental real dos grandes eventos.
A investigação, que juntou investigadores do MARE e ARNET da Universidade de Évora e da Universidade de Coimbra, e uma investigadora do GeoBioTec da Universidade de Aveiro, acompanhou três edições do RFM SOMNII para estudar a acumulação de resíduos na Praia do Relógio, na Figueira da Foz. Através deste acompanhamento, o estudo identificou os tipos de lixo mais comuns e as zonas mais vulneráveis à sua acumulação. Os resultados e recomendações podem agora ajudar municípios e organizadores a reduzir o impacto ambiental de grandes eventos realizados junto ao mar.
Com o regresso do RFM SOMNII à Figueira da Foz, o MARE divulga os resultados desta investigação, que acompanhou as edições do festival (entre 2019 e 2023) e demonstra como a ciência pode apoiar tomadas de decisão eficazes para conciliar grandes eventos culturais com a conservação e o cumprimento de metas ambientais nacionais e europeias.
Conhecer o problema para agir com eficácia
Ao longo de cinco anos, os investigadores acompanharam a acumulação de resíduos antes e após o festival. Foram realizadas 17 campanhas de monitorização que permitiram recolher mais de 26 mil resíduos. Mais de 90% dos itens recolhidos eram plásticos, incluindo plásticos de utilização única e fragmentos não identificáveis difíceis de rastrear, registando quantidades acima dos limites europeus recomendados.
A principal conclusão do estudo indica que os padrões de deposição resultam diretamente do comportamento dos participantes e de limitações na gestão. Os resíduos concentram-se fortemente nas áreas de maior atividade e presença de público, especificamente no palco e na zona VIP. Conhecer estes padrões espaciotemporais permite antecipar problemas, ajustar a localização de pontos de recolha, orientar equipas de limpeza e implementar limpezas intermédias eficazes nestas áreas críticas.
Os anos de 2020 e 2021, em que o festival foi cancelado devido à pandemia de COVID-19, registaram uma diminuição acentuada e muito significativa da contagem de resíduos e plásticos de uso único na praia. Nas edições em que o festival se realizou, a monitorização mostrou que a adopção de materiais reutilizáveis, mas ainda assim facilmente descartáveis, como copos de plástico, não é suficiente para eliminar estes resíduos; que as operações de limpeza são determinantes, mas deverão ser reforçadas e ajustadas à realidade do festival; e que as práticas associadas à produção do festival, como o uso e descarte de braçadeiras, deverão ser alvo de medidas dedicadas.
Ciência ao serviço do mar
Para o MARE, proteger o mar exige atuar na prevenção a montante. Melhorar a gestão dos resíduos e fluxos intensos nas praias significa impedir a dispersão de lixo e fragmentos para o mar, reduzindo a poluição que degrada e ameaça os ecossistemas costeiros.
A metodologia utilizada e as recomendações geradas poderão agora ser aplicadas noutros festivais, eventos desportivos e iniciativas em zonas costeiras. O estudo estabelece orientações para que as autarquias tornem o licenciamento mais exigente, para que os organizadores substituam descartáveis por sistemas de incentivo ao retorno e controlo de embalagens, e para que entidades reguladoras criem normas técnicas harmonizadas com as diretivas europeias.
“Os grandes festivais fazem parte da vida das zonas costeiras e podem coexistir com a conservação do ambiente. O conhecimento científico permite identificar onde é necessário atuar, otimizar recursos e desenvolver soluções que beneficiam tanto as pessoas como os ecossistemas”, destaca Zara Teixeira do MARE.









