Tiago André Marques é professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL) e participou num estudo internacional que tinha como objetivo estimar o número de ursos-polares (Ursus maritimus) que vivem no leste da Gronelândia, considerada uma das regiões mais remotas e menos estudadas do Ártico.
Num artigo publicado na revista ‘Endangered Species Research’, que foi liderado pela Universidade de Washington (Estados Unidos da América) e é também assinado por investigadores da Dinamarca, Noruega, Canadá e da própria Gronelândia, a equipa estima que nessa região existam cerca de 2.275 ursos-polares, numa área de aproximadamente 1,5 milhões de quilómetros quadrados de gelo marinho.
Os investigadores entendem que esse é um número significativo, considerando que se trata de uma espécie classificada como “Vulnerável” na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza e cuja sobrevivência depende fortemente de gelo marinho, também ele a desaparecer por causa do aquecimento do planeta.
“Esta população de ursos-polares é a última para a qual não se sabia a estimativa da sua abundância e o objetivo deste projeto era precisamente realizar uma amostragem que permitisse responder a essa questão”, diz Tiago André Marques, citado pela FCUL.
O estudo teve por base a realização de voos, num total de 106 horas ao longo de 26 dias entre março e maior de 2023, durante os quais avistaram um total de 108 ursos. A equipa conjugou esses números com um método de ecologia de campo chamado “amostragem por distâncias”, que consiste em estimar o número de ursos numa dada área, tendo por base o conjunto de percursos de voo predeterminados e as distâncias registadas aos animais avistados. Dessa forma, consegue-se obter uma estimativa da abundância, neste caso, dos ursos-polares nessa região.
No artigo, os cientistas escrevem que esta primeira estimativa de abundância da subpopulação do leste da Gronelândia serve como referência para futuros esforços de monitorização e contribui para ampliar o conhecimento sobre o estado global da espécie. O isolamento extremo do leste da Gronelândia tinha impedido até agora a realização de campanhas de monitorização da população de ursos da região.
Com as alterações climáticas a avançarem rapidamente, e com a consequente perda de gelo, os ursos-polares poderão enfrentar dificuldades no futuro, e há ainda muitas dúvidas sobre os limites da capacidade de adaptação desses animais a um mundo em mudança.
“Não se sabe o que vai ocorrer na ausência de gelo”, avança Tiago André Marques, também investigador do Centro de Estatística e Aplicações, da Universidade de Lisboa (CEAUL), e da Universidade de St Andrews, na Escócia.









