Num planeta em transformação, os sistemas de produção agroalimentar estão sob uma pressão cada vez maior. Secas e cheias podem arruinar colheitas e matar animais de gado, doenças podem arrasar produções inteiras.
Na Europa, a ambição é que a produção agroalimentar se alinhe mais e mais com os objetivos climáticos e de proteção da Natureza, ao mesmo tempo que forneçam produtos mais acessíveis e se mantém competitiva no mercado global. Contudo, apesar de a fasquia estar alta, o progresso continua a ser lento.
A conclusão é de uma investigação liderada pela Universidade de Aarhus (Dinamarca), em colaboração com várias outras instituições europeias, que, num artigo publicado na revista ‘Nature Food’, falam da existência de um paradoxo, entre vontade e reais avanços.
“Há um consenso generalizado de que o abastecimento alimentar na Europa tem de mudar”, afirma Sophie Nicklaus, do Instituto Nacional de Investigação sobre Agricultura, Alimentação e Ambiente (INRAE), de França. Para a coautora do estudo, as estruturas regulatórias continuam a ser “muito conservadoras”, o que, argumenta, “significa que a mudança ocorre demasiado lentamente”.
“Foi essa tensão que procurámos compreender com este estudo”, diz.
Os investigadores apontam a existência de barreiras que se autorreforçam e que mantêm a Europa presa a formas particulares de produção, regulação e consumo de alimentos, “mesmo quando há fortes argumentos para mudar de rumo”.
A equipa diz que não há falta de vontade nem de conhecimento por parte, por exemplo, de agricultores, consumidores, empresas e legisladores para se fazer a mudança. Contudo, todos esses agentes operam dentro de estruturas em que “os incentivos, os regulamentos, as estruturas de mercado e os hábitos puxam para diferentes direções e mantêm os atuais sistemas”.
Entre os principais obstáculos à transformação do sistema agroalimentar na Europa os investigadores apontam cinco: a fragmentação política e regulatória e falta de coordenação em torno da produção alimentar, a dificuldade em mudar hábitos de consumo, a predominância de um foco na produção e eficiência de curto-prazo, o facto de os impactos ambientais da produção não serem refletidos nos preços dos alimentos, e a vulnerabilidade das cadeias de abastecimento alimentar a crises e ao inesperado.
Além de elencarem os problemas, os investigadores apontam também cinco princípios que acreditam poder ajudar legisladores, empresas e a sociedade civil a “desbloquearem” o sistema agroalimentar europeu e a impulsionar a transformação de que precisa ser feita para protegê-lo e adaptá-lo a uma realidade mais volátil.
Esses princípios são priorizar o acesso a alimentos saudáveis, sustentáveis e a preços acessíveis; incluir todos os intervenientes nos processos de transformação, mesmo aqueles que possam ter mais a perder com ela; promover processos e decisões transparentes e responsáveis; olhar para a diversidade dos sistemas agroalimentares da Europa como uma força; e mudar mentalidades para um foco na priorização do bem comum.
“Não se trata apenas de novas tecnologias”, avisa Jørgen E. Olesen, primeiro autor do artigo. “Trata-se de liderança, de prioridades e de coragem para ter uma visão global”, salienta.









