Este cinco portas de silhueta esticada rouba a linguagem aos elétricos da casa. Pegámos na versão GT-Line 1.0 turbo a gasolina, ajudado por um sistema mild-hybrid de 48 volts, e fomos para a estrada para perceber se faz sentido num tempo que pede menos consumos e menos emissões.
Há marcas que mudam de modelo como quem muda de camisa, e há outras que aproveitam a ocasião para virar uma página inteira. O K4 pertence ao segundo grupo. Substitui o Ceed, um nome com três gerações de bons serviços, mas não tenta ser o seu herdeiro discreto. Estaciona à nossa frente em amarelo Sparkling e a primeira reação é olhar duas vezes: aquilo é mesmo um familiar do segmento do Golf? As proporções dizem que sim (4,44 metros de comprimento, 2,72 de distância entre eixos), o desenho insiste que não.
A assinatura luminosa vertical nas extremidades da frente, a que a Kia chama Star Map, é a mesma gramática dos EV3 e EV4. A linha de tejadilho cai em fastback, os puxadores traseiros escondem-se no pilar, e o conjunto consegue a proeza de parecer mais caro do que custa. Andámos uns dias com ele e a sensação manteve-se: nos parques de estacionamento, é o carro para o qual as pessoas viram a cabeça. Mérito reforçado, na GT-Line, pelas jantes de 17 polegadas de desenho próprio, pelos detalhes em preto brilhante e pelos faróis full-LED.
Lá dentro, a transição para o mundo digital está consumada sem drama. Três ecrãs alinham-se ao longo do tablier: 12,3 polegadas para a instrumentação, um painel central de 5 polegadas só para a climatização e outros 12,3 para o infotainment. O pormenor que mais nos agradou não é nenhum dos ecrãs, mas sim a fila de botões físicos por baixo, que sobreviveu à febre do toque. Ajustar a temperatura sem tirar os olhos da estrada continua a ser possível, e isso, hoje, já é uma raridade que se agradece. O Apple CarPlay e o Android Auto funcionam sem fios, há carregador de indução para o telemóvel e os materiais ao alcance da vista são agradáveis.

Os bancos da GT-Line, aquecidos e com bom apoio lateral, convidam a ficar. A posição de condução é baixa, o tablier também, e a visibilidade para a frente surpreende pela positiva.
Mãos no volante
Na cidade, onde o K4 passa a maior parte da vida, tudo corre fácil: a caixa de dupla embraiagem de sete relações desliza entre semáforos com suavidade e o motor de três cilindros 1.0 tem fôlego de sobra para o ritmo urbano. O raio de viragem curto, de 5,4 metros, ajuda nas manobras, e as câmaras e sensores tornam o estacionamento um não-assunto.
É quando a estrada abre que convém gerir as expectativas. Os 115 cavalos e os 200 Nm são suficientes, não generosos. Em retomas exigentes, a subir, com o carro carregado, percebe-se que o pequeno turbo precisa de ser esticado, e a caixa, tão competente no trânsito, mostra alguma preguiça a responder a um pedido súbito de aceleração. Não é um carro para quem procura emoções: é um carro para quem procura serenidade. E nesse registo cumpre muito bem. A direção é precisa, coloca o K4 onde queremos sem hesitações, há aderência de sobra e o adornar da carroçaria nas curvas existe, mas está bem contido. As patilhas atrás do volante e o seletor de modos de condução dão a ilusão de envolvimento, e em modo Sport as mudanças ficam mais nervosas, ainda que o coração do carro continue a ser o conforto. Em autoestrada, o assistente de condução em estrada (Highway Drive Assist) mantém distâncias e faixa com competência, lê os limites de velocidade e alivia bastante a fadiga em viagens longas, enquanto o habitáculo permanece silencioso a velocidade de cruzeiro.
Não é elétrico, mas…
Este K4 não é elétrico, mas também não finge ignorar o tema. O sistema mild-hybrid de 48 volts não move o carro sozinho, porém alivia o motor nos arranques, permite navegar com o motor desligado em desacelerações e recupera energia nas travagens. O resultado anunciado é um consumo combinado WLTP de 5,7 l/100 km e emissões de 130 g/km de CO2, números modestos para um carro deste tamanho. Na nossa utilização, mista mas com bastante cidade, ficámos pouco acima dessa marca, na casa dos 6,2 a 6,5 litros, o que para um percurso real é honesto. Não substitui um elétrico, e a Kia não o vende como tal; é, isso sim, o degrau intermédio sensato para quem ainda não pode ou não quer passar à tomada, mas quer gastar e poluir menos do que num gasolina convencional.
A praticidade tem uma nota de rodapé que vale a pena referir. A bateria do sistema de 48 volts arrumou-se sob a bagageira, e por isso a capacidade fica nos 328 litros, abaixo do que o tamanho exterior prometia, e sem o piso de altura ajustável. Não é um abismo, e os 1.107 litros com os bancos rebatidos resolvem mudanças e fins de semana, mas é o tipo de compromisso que convém saber de antemão.
No fim da semana, a conclusão escreve-se sozinha. O Kia K4 GT-Line não é o carro mais rápido nem o mais empolgante do segmento, e nunca quis ser. É um companheiro de todos os dias bem desenhado, bem equipado, confortável e racional no consumo, com a garantia de sete anos da marca. Para quem faz sobretudo cidade e algum percurso de estrada, e quer uma transição suave para hábitos mais sóbrios sem dar o salto total para o elétrico, o K4 é uma escolha que se percebe à primeira e se confirma ao volante.
Ficha rápida
- Consumo que fizemos: 6,2 a 6,5 l/100 km num uso misto com muita cidade, contra os 5,7 l/100 km homologados em WLTP e 130 g/km de CO2.
- O que gostámos: desenho que herda a elegância dos elétricos da Kia, ecrã triplo com botões físicos de climatização que sobreviveram, bancos confortáveis e um silêncio de marcha que faz esquecer que ali trabalha um três cilindros.
- A reter: o 1.0 turbo pede para ser esticado em estrada e a bagageira (328 litros) paga o preço da bateria de 48 volts. Não é um elétrico, mas é, com bom senso, o passo intermédio para quem ainda não quer a tomada.
Artigo publicado na edição n.º 23 da revista Green Savers.









