Os humanos são os únicos primatas atualmente existentes que regularmente caçam animais tão grandes ou maiores do que eles. Esse comportamento, conhecido como “padrão predatório humano”, é tido como central no desenvolvimento de cérebros maiores e das características que fazem de nós o que hoje somos.
Contudo, esse comportamento não surgiu do nada e perceber as suas origens e evolução ajuda a aprofundar ainda mais o conhecimento sobre a nossa própria espécie. Muitas vezes, os outros primatas com os quais partilhamos o planeta são as melhores janelas para o nosso passado.
Uma equipa de investigadores descobriu que os macacos-capuchinho da espécie Sapajus libidinosus também caçam e alimentam-se de carne de vertebrados quando as frutas e plantas se tornam escassos nos locais onde vivem.
Encabeçado por Susana Carvalho, diretora científica do Parque Nacional da Gorongosa (Moçambique), investigadora do CIBIO da Universidade do Porto e professora de Paleoantropologia na Universidade de Oxford, o trabalho apoiou-se na análise de mais de 5.000 horas de observações desses primatas entre 2006 e 2010 no nordeste do estado do Piauí, no Brasil.
De acordo com o artigo que publicaram recentemente na revista ‘PLOS One’, os cientistas dizem ter conseguido 446 registos de macacos-capuchinhos a comerem pequenos animais, sobretudo lagartos (43%) e roedores (28%). Contudo, entre os registos estão também os primeiros de sempre desses macacos a comerem opossuns, iguanas e crias de aves.
Comparando machos e fêmeas, os investigadores perceberam que eles caçam mais vezes do que elas e que perseguiam presas mais perigosas, como serpentes.
A caça era mais frequente quando a disponibilidade de alimentos vegetais era mais reduzida, um comportamento que os investigadores dizem ter tido já sugerido como também presente nos antepassados humanos durante períodos de flutuação climática. Além disso, os resultados sugerem que os hábitos de caça dos macacos-capuchinhos variam consoante o sexo e os nutrientes em falta nas suas dietas, e mostram uma especial preferência pelos cérebros e vísceras das presas, tecidos ricos em gordura.
A equipa considera que investigações ao registo fóssil devem tentar procurar indícios de padrões semelhantes em humanos antigos, o que permitirá perceber se os primatas não-humanos existentes atualmente podem ajudar a desvendar as origens evolutivas dos hábitos predatórios humanos.
“Este estudo mostra a necessidade crucial de trabalho de campo de observação a longo prazo para compreender, de forma fiável, o comportamento de espécies de primatas de longas vidas e altamente flexíveis”, referem os autores do estudo.
“A caça de pequenas presas pode ter sido uma importante fonte de nutrição para os antepassados humanos, durante períodos de escassez de alimentos”, explicam, o que poderá ter aberto caminho para a exploração de presas maiores.









