Macacos-caranguejeiros perdem mais de metade da população em menos de 30 anos

Entre 1995 e 2022, as populações de macacos-caranguejeiros (Macaca fascicularis) sofreram perdas de entre 50% e 70% devido à perda de habitat, a conflitos com humanos, ao tráfico, à caça e à captura para fins de investigação farmacêutica e biomédica.

Filipe Pimentel Rações

Entre 1995 e 2022, as populações de macacos-caranguejeiros (Macaca fascicularis) sofreram perdas de entre 50% e 70% devido à perda de habitat, aos conflitos com humanos, ao tráfico, à caça e à captura para fins de investigação farmacêutica e biomédica.

A tendência de declínio populacional dessa espécie de primata é confirmada na mais recente atualização da Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas, publicada este mês pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), organização responsável por esse catálogo do estado da biodiversidade do planeta.

Alertam os especialistas que, como as ameaças que a espécie enfrenta não estão a ser mitigadas e continuam a pressionar as suas populações, tudo indica que perdas semelhantes de entre 50% e 70% serão registadas durante os próximos 30 anos.

Em 2008, os macacos-caranguejeiros foram classificados como espécie “Pouco preocupante” quanto ao risco de extinção enfrentado. No entanto, em 2020 o estatuto foi agravado para “Vulnerável”, mantendo-se assim até 2022, quando a espécie foi classificada como “Em perigo”, classificação que voltou a ser confirmada na avalização deste ano.

Os macacos-caranguejeiros são primatas que vivem no sul e sudeste da Ásia. Altamente adaptáveis e de hábitos alimentares generalistas, ocorrem numa variedade de habitats, como florestas, zonas costeiras e montanhas. Apesar de ser uma área geográfica extensa, as suas populações existem em núcleos isolados. A sua “plasticidade” ecológica permite-lhes prosperarem em áreas com forte presença humana, como zonas agrícolas e cidades, o que aumenta a probabilidade de conflitos com os humanos.

Os especialistas que reavaliaram o estado de conservação da espécie dizem que existem atualmente poucos esforços de conservação dirigidos aos macacos-caranguejeiros, especialmente porque se pensa que têm uma abundância excessiva. No entanto, a avaliação aponta em sentido contrário.

“Quando, há vários anos, iniciámos a nossa investigação, não esperávamos encontrar os resultados que agora temos”, diz, em nota, Malene Friis Hansen, investigadora que liderou a reavaliação dos macacos-caranguejeiros para a Lista Vermelha.

“Os macacos-caranguejeiros usam recursos humanos e partilham habitats com os humanos, permitindo a adaptação a alterações antropogénicas e climáticas. Esta é uma capacidade incrível com a qual podemos aprender, mas também significa que podem acontecer conflitos entre humanos e macacos e que as populações de macacos são continuamente sobrestimadas.”

Protestos da indústria biomédica

A captura de macacos-caranguejeiros para fins de investigação biomédica é uma das ameaças à conservação da espécie. Devido às suas similaridades biológicas e fisiológicas com os humanos, esses primatas são usados no desenvolvimento de medicamentos e terapêuticas.

Quando em 2022 os macacos-caranguejeiros foram classificados como espécie “Em perigo” pela primeira vez, o setor revoltou-se. A Associação Nacional de Investigação Biomédica (ANIB), uma organização sediada em Washington D.C. (Estados Unidos da América) que defende os interesses dessa indústria, contestou a avaliação.

Em junho de 2023, submeteu uma petição à UICN para reverter o agravamento do estatuto de conservação da espécie, dizendo que a categoria de “Em perigo” impõe restrições à importação desses primatas que comprometem o desenvolvimento da investigação biomédica, pondo em risco “milhões de vidas humanas” e ameaçando “a saúde pública global”.

Em comunicado, a ANIB dizia que o agravamento do estatuto de ameaça dos macacos-caranguejeiros tivera por base “informação científica não validada por pares” e acusava os especialistas envolvidos na avaliação de “ações arbitrárias” que criavam um “precedente perigoso”.

“A avaliação da UICN [de 2022] falha em apresentar evidências científicas que apoiem a reclassificação dos macacos-caranguejeiros de vulneráveis para em perigo”, acusava a ANIB, acrescentando que a avaliação continha “numerosos erros e declarações incorretas” e que não fornecia provas científicas de que tinham ocorrido declínios da espécie face a avaliações anteriores.

“Como os primatas não-humanos e humanos partilham entre 93% e 98% do seu ADN, têm anatomias cerebrais semelhantes e partilham sistemas corporais semelhantes, [os primatas não-humanos] são fundamentais para descobertas na investigação biomédica que resultam em novos medicamentos, vacinas e medicamentos biológicos”, declarava a ANIB.

Apesar dos protestos, o estatuto de “Em perigo” dos macacos-caranguejeiros foi mantido, com os especialistas a alertarem para a continuação de ameaças graves à sobrevivência da espécie, que é menos abundante, indicam, do que se pensa ou do que alguns setores dizem ser.

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