Machos de quimeras têm mesmo dentes verdadeiros fora da boca

Os apêndices que os machos de quimera têm na testa, chamados tenáculos, têm dentes iguais aos que os animais têm na sua boca, e não escamadas rijas como se pensava.

Filipe Pimentel Rações

As quimeras são peixes cartilagíneos do grupo dos tubarões e das raias (os elasmobrânquios) que vivem nas profundezas oceânicas, até mil metros abaixo da superfície.

Continuam a ser animais misteriosos e sobre os quais ainda pouco se conhece, mas sabe-se que os machos têm nas suas testas uma espécie de apêndice que usam para manter as fêmeas imóveis na altura da cópula. Pensava-se que essa estrutura, a que os cientistas chamam de tenáculo, estivesse equipado com algo semelhante a dentes, mas que não tinham relação com os dentes que os animais têm nas suas bocas, antes escamas modificadas e duras, como as que cobrem os corpos dos tubarões e lhes conferem uma hidrodinamismo singular.

Agora, num artigo publicado recentemente na revista ‘PNAS’, investigadores das universidades da Flórida, de Washington e de Chicago, nos Estados Unidos da América, dizem que os tenáculos não estão munidos de algo semelhante a dentes, mas sim de dentes reais que crescem fora da cavidade oral das quimeras machos.

O trio de cientistas analisou fósseis de quimeras e também espécimes vivos. Num dos exemplares fossilizados, com 315 milhões de anos, identificaram um tenáculo associado à mandíbula superior do animal, com dentes “incrivelmente semelhantes” aos que tinha na sua boca.

Com base em análises genéticas feitas a quimeras modernas da espécie Hydrolagus colliei capturadas na zona estuarina de Puget Sound, que se liga ao leste do Oceano Pacífico, onde habitam esses peixes crípticos, percebeu-se que os genes encontrados nos dentes dos tenáculos são os mesmos que se encontram nos dentes orais.

Gareth Fraser, um dos autores do estudo, explica, citado em nota, que a capacidade do tenáculo para produzir dentes reais foi provavelmente transferida da boca das quimeras para esse apêndice. “Ao longo do tempo, o tenáculo tornou-se mais curto, mas reteve a capacidade para produzir dentes orais”, salienta.

Tenáculo de quimera macho, visto com técnicas avançadas de imagiologia. Fonte: Cohen et al., 2025, PNAS.

Por seu lado, Karly Cohen, primeira autora, diz que o tenáculo dentado das quimeras é um “belo exemplo” do que ela chama de “bricolagem” evolutiva, uma vez que esses peixes pegaram num “programa pré-existente para produzir dentes” e usaram-no para “criar um novo dispositivo que é essencial para a reprodução”.

“O tenáculo é uma relíquia evolutiva, não algo bizarro e isolado, e é o primeiro exemplo claro de uma estrutura dentada fora da mandíbula”, aponta Cohen.

Para a equipa, os machos das quimeras demonstram, sem espaço para dúvidas, a “flexibilidade impressionante da evolução”, que é capaz de “reutilizar estruturas para novos usos estranhos e inesperados”.

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