A maioria dos canídeos selvagens que vivem em liberdade na Austrália, frequentemente classificados como “cães selvagens”, possui uma ascendência maioritariamente ligada aos dingos, segundo um novo estudo conduzido por investigadores da Adelaide University.
A equipa científica, ligada ao Australian Centre for Ancient DNA e ao Environment Institute, analisou geneticamente mais de 300 canídeos em liberdade em diferentes regiões da Austrália. Os resultados mostram que, em média, apenas 11,7% do ADN destes animais provém de cães domésticos europeus.
Os níveis de mistura genética foram mais elevados no sudeste australiano, sobretudo nos estados de Vitória e Nova Gales do Sul, e significativamente mais baixos nas regiões remotas do norte e oeste do país.
“Durante décadas, diferentes testes genéticos produziram respostas contraditórias sobre a quantidade de ascendência de cães europeus presente nos dingos em liberdade”, afirma Yassine Souilmi, investigador principal do estudo publicado na revista científica Conservation Letters.
“O nosso estudo utilizou ADN de dingos pré-coloniais como referência autêntica para resolver essa divergência, e concluímos que a esmagadora maioria dos canídeos em liberdade na Austrália é predominantemente dingo”, acrescenta.
Segundo os investigadores, a descoberta poderá ter implicações importantes na classificação da espécie e na definição de políticas de gestão e conservação.
“A designação ‘wild dog’ esconde diferenças biológicas e culturais importantes. Um indivíduo predominantemente dingo não é o mesmo que um cão doméstico abandonado”, sublinha Yassine Souilmi.
“Futuras estratégias de gestão devem ser adaptadas regionalmente e desenvolvidas em estreita colaboração com as comunidades indígenas australianas, para quem os dingos são companheiros e parte da família há milhares de anos”, afirmou.
A nova técnica genética desenvolvida pelos investigadores permite identificar a ancestralidade dos animais utilizando poucos marcadores de ADN, reduzindo significativamente os custos de análise em larga escala.
“Como o nosso teste funciona de forma fiável com um número reduzido de marcadores, a análise de ancestralidade tornou-se finalmente acessível para utilização rotineira”, explica Shyamsundar Ravishankar, coautor principal do estudo.
“As agências de conservação já não precisam de um orçamento equivalente ao de um genoma completo para obter respostas fiáveis”, acrescenta.
O estudo identificou ainda oito populações geneticamente distintas de dingos na Austrália, incluindo dois grupos até agora desconhecidos nas regiões norte e central do país.
Depois de descontada a influência genética dos cães domésticos, os investigadores verificaram que as populações do sudeste australiano apresentam uma diversidade genética muito inferior à das populações do norte e centro da Austrália.
“Quando removemos a componente genética dos cães domésticos, o cenário altera-se”, explica Nhi Chau Nguyen, coautora principal do estudo.
“A ascendência de cães domésticos aumentou a variação genética global dos dingos do sudeste, mas também destruiu parte das características genéticas que tornavam estas populações distintas”, concluiu.
Os investigadores confirmaram ainda estudos anteriores que indicavam que a mistura genética entre dingos e cães europeus atingiu o pico em meados do século XX, sobretudo durante a década de 1960, coincidindo com o crescimento populacional e a intensificação agrícola no sudeste da Austrália.









