Mais de 5.000 pessoas morrem anualmente em Portugal devido à poluição atmosférica

Todos os anos, morrem em média 5.000 pessoas prematuramente em Portugal devido à exposição a dióxido de azoto e a matéria particulada fina. As conclusões são avançadas num estudo científico publicado este ano na revista ‘Science of the Total Environment’.

Filipe Pimentel Rações

Todos os anos, morrem em média 5.000 pessoas prematuramente em Portugal devido à exposição a dióxido de azoto e a matéria particulada fina. As conclusões são avançadas num estudo científico publicado este ano na revista ‘Science of the Total Environment’.

Os especialistas alertem que o nível de mortalidade por exposição a esses poluentes é mais significativo nas áreas urbanas e nas zonas costeiras, sendo que o ozono é responsável por mais de 140 dos óbitos anuais. E denunciam a escassez de avaliações quantitativas que permitam estabelecer relações entre a poluição atmosférica e a mortalidade.

Numa análise regional, o estudo revela que dos 11 municípios que registam concentrações de dióxido de azoto mais elevadas, Porto, Lisboa e Guimarães surgem como as cidades com os maiores números de mortes relacionadas com a exposição a esse gás nocivo para a saúde humana, sendo “significativamente mais elevadas do que em todos os outros municípios, à exceção do Funchal”.

No que diz respeito às partículas finas, os cientistas destacam as cidades do Seixal e de Estarreja como aqueles onde se registam as maiores concentrações de dessas matérias e os mais expressivos impactos na saúde das populações. “São significativamente mais elevadas do que em mais de 50% dos outros municípios”, devido à atividade industrial, designadamente ao nível da metalurgia e da química.

Em Estarreja, a poluição atmosférica por partículas finas é agravada por ventos desérticos oriundos do Saara, de acordo com avaliações da Agência Europeia do Ambiente, que afetam a qualidade do ar de países do sul da Europa, incluindo Portugal.

O estudo aponta também a região de Alandroal como sendo uma das mais afetadas por partículas finas, embora o coletivo de especialistas argumente que tal se deva a ventos que transportam poeiras minerais do Norte de África. Ainda assim, não afastam as contribuições da atividade industrial no centro do Alentejo para a poluição atmosférica nessa cidade, salientando que “a contribuição de emissões dessas fontes não pode ser excluída”.

Relativamente ao ozono, o artigo aponta as regiões rurais e do interior do país como as mais atingidas, sendo que é também aí que se registam os valores mais baixos de poluição por dióxido de azoto e por partículas finas.

Nesse campo de análise, é avançado que embora os maiores níveis de ozono registem maiores concentrações em zonas interiores, as cidades de Viana do Castelo e de Sines apresentam também níveis bastante altos desse gás poluente, fruto das emissões industriais de ozono para a atmosfera, especialmente produzidas pelo transporte marítimo.

O estudo recorreu à ferramenta AirQ+, desenvolvida pela Organização Mundial de Saúde (OMS) para sustentar as suas conclusões, que derivaram de análises das concentrações de poluentes atmosféricos em vários municípios de Portugal entre 2010 e 2019.

Os cientistas alertam que a concretização dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), plasmados na Agenda 2030 das Nações Unidas, têm ficado aquém do desejável, particularmente no que toca aos eixos relativos a um ambiente saudável, e classificam os esforços dos vários governos do mundo como “insuficientes”.

“Em Portugal, tais insuficiências são evidentes na monitorização estatística da Agenda 2030 para o período 2010-2019”, denunciam, afirmando que existe falta de dados que permitam traçar relações entre a poluição atmosférica e os níveis de mortalidade no país.

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