A produção de cacau é apontada como uma das grandes causas da destruição das florestas a nível global. Por isso, o regulamento anti-desflorestação da União Europeia (UE), que entrará em vigor já em dezembro para grandes e médias empresas, quer que seja conhecida a origem de todos os produtos agrícolas que sejam importados para o bloco, para assegurar que não resultam da desflorestação.
Contudo, a pouco mais de sete meses da entrada em vigor do regulamento, persistem problemas significativos na rastreabilidade do cacau exportado para a UE do seu maior fornecedor.
De acordo com a organização não-governamental Trase, apenas para 48% do volume de cacau exportado da Costa do Marfim para a Europa em 2024 era possível saber ao certo o local onde os grãos de cacau tinham sido cultivados e obtidos. A Costa do Marfim é o maior produtor e exportador mundial de cacau e a UE é o seu maior mercado, representando, em 2024, 66% do volume exportado por esse país da África ocidental.
A análise teve por base informação disponibilizada publicamente pelas empresas que exportam os grãos de cacau, o que significa que a origem dos restantes 52% do volume exportado da Costa do Marfim para a UE não pode se devidamente conhecida. E isso dever-se-á, sugere a Trase, a cadeias de valor indiretas ou constituídas por múltiplos intermediários.
Mark Titley, um dos investigadores da Trase, diz que as cadeias de valor do cacau na Costa do Marfim têm sido responsáveis por “níveis chocantes de perda de floresta”. Para ele, é importante que as empresas que agem com transparência quanto à origem dos grãos de cacau que produzem e comercializam devem liderar pelo exemplo e impulsionar outras a seguirem-lhes as pisadas.
Segundo a organização, 79% das florestas primárias da Costa do Marfim foram perdidas ou degradadas entre 2000 e 2024. Embora o nível de desflorestação tenha desacelerado na última década no país, tal deve-se sobretudo ao facto de ter já perdido a maior parte da sua floresta fora dos limites de áreas protegidas.
Os especialistas dizem que estes dados mostram que a aplicação e eficácia do regulamento anti-desflorestação da UE, também conhecido pela sigla EUDR, enfrenta ainda uma série de desafios, mesmo com a sua entrada em vigor a aproximar-se rapidamente.









