O Porto foi imaginado em 2050 como sendo mais verde e azul, com um corredor universitário fechado ao carro e um observatório independente que represente institucionalmente o ecossistema da cidade, na ‘Máquina do Tempo’ da Fundação Futura.
O projeto decorreu no Círculo Universitário do Porto, em julho, e agregou 12 pensadoras associadas a vários especialistas, de várias áreas, para imaginarem a cidade e o que ela precisa até lá, daqui a 24 anos, cujo Mapa Porto 2050 foi entregue já à vice-presidente da câmara, Catarina Araújo.
“A experiência foi muito positiva. […] O objetivo é trazer as pessoas para um espaço onde imaginar o futuro é possível e não há limites, não há respostas erradas nem certas, só a imaginação do que as pessoas conseguem ver”, explica uma das fundadoras da Futura, a antiga ministra da Cultura Graça Fonseca, em entrevista à Lusa.
Segundo a ex-ministra (2018-2022), as pessoas mostraram querer “uma cidade mais verde e azul, mais vivida, mais humana”, com “mais pontos de acesso às margens do rio, que as pessoas possam ser guardiãs da infraestrutura verde e azul”, com maior envolvimento cidadão nos temas que lhes dizem respeito, da gestão do rio à monitorização e conservação da biodiversidade.
Em termos de política pública, Graça Fonseca destaca a proposta de proximidade verde garantida, um conceito que tem vindo a ganhar tração internacional e em que “cada residente vive no âmbito de 300 metros de um espaço verde”, uma convicção especialmente pertinente “no contexto de ondas de calor”.
A par de mais árvores, mais espaços verdes e maior proximidade, a construção de mais refúgios climáticos é outra das propostas, à semelhança de cidades europeias como Barcelona, acrescenta.
Entre as propostas está ainda a criação de um “Observatório Independente, que representa institucionalmente o ecossistema verde e azul do Porto”, para promover “uma ideia de sentido de pertença e apropriação”, na base de uma estratégica assente em quatro pilares: institucional e jurídico, social, digital, e ambiental.
O documento que saiu do encontro, a 10 e 11 de julho, divide a cidade em quatro blocos: Bonfim + Campanhã, Baixa + Paranhos, Ramalde + Aldoar, e Foz + Lordelo do Ouro.
Nele, o projeto descreve o futuro da cidade como sendo “moldado por verões mais quentes, chuvas mais fortes, e pressão crescente no espaço público, fatores de saúde e na água. Uma estratégia positiva para a Natureza transforma a resiliência climática num benefício cívico partilhado”, pode ler-se num relatório após a realização do programa.
Uma proposta prende-se com o primeiro “quarteirão livre de carros”, começando no Jardim Botânico e seguindo até à Faculdade de Ciências, redesenhado como “um jardim público contínuo”.
Quotas para pessoas com deficiência em órgãos de decisão municipais, a garantia de acessibilidade educativa, salas de aula ao ar livre, mais ciclovias, mais corredores verdes, a renaturalização de cursos de água entubados, telhados verdes, sistemas de recolha e reutilização de águas pluviais e a criação de refúgios climáticos são algumas das propostas elencadas para esta zona.
Para o Bonfim e Campanhã, o foco está no saber fazer, industrial e artesanal, na articulação do ensino superior com saberes tradicionais, na abertura de oficinas à comunidade, em que seja promovida a troca de conhecimento intergeracional.
A melhoria e requalificação dos acessos à zona ribeirinha do Douro, a criação de mais zonas recreativas, corredores verdes orientados para a produção e apresentação artística, o cultivo de plantas municipais em jardins públicos, hortas comunitárias, e a gestão partilhada da fauna e flora selvagem compõem outras propostas.
Ramalde e Aldoar, “a cidade que tecemos”, segundo a descrição, inclui o observatório para representar o ecossistema do Porto, mas também a proximidade verde garantida e o conceito de ‘cidade esponja’, relativa à retenção e infiltração de águas pluviais.
Taxar imóveis de habitação deixados vazios de forma progressiva, quando ali podia viver gente, o conceito de cidadãos que assumem custódia e responsabilidade da cidade, do espaço público à biodiversidade, e um orçamento municipal cuja aplicação é decidida pelos munícipes são outras das propostas.
Por fim, a Foz e Lordelo do Ouro teriam mais árvores, mais jardins, uso reduzido do carro e a reflorestação da linha costeira como prioridades de imaginação e sonho, como são descritas, além de nova legislação para tornar obrigatório um espaço verde, um ponto de água e um espaço social, em cada casa nova, e que as construções se focam em materiais obtidos de forma circular e orgânica, chegando finalmente à neutralidade carbónica.
Por outro lado, uma proposta para mudar o curso da cidade a caminho de 2050 implicaria fazer do Porto a primeira do mundo a tornar impossível a venda de habitação pública, por quaisquer regras, reconhecendo ainda o ‘cohousing’ (habitação partilhada) e dando voz e poder de decisão aos munícipes em matéria de habitação.
Alguns dos riscos identificados, para as várias zonas, prendem-se sobretudo com a elevada burocracia do sistema e com a potencialidade de os decisores políticos serem avessos à mudança, mas também a dependência do automóvel individual e a resistência de promotores imobiliários.
Esta ‘Time Machine’ é um trabalho conjunto da recente Fundação Futura com a Universidade do Porto, Henrique Nascimento, do Transformative Times, e a equipa coordenada por Roberto Falanga.
A máquina do tempo passará por Coimbra, ainda este ano, e Lisboa e Évora em 2027, ano em que a capital de distrito no Alentejo será Capital Europeia da Cultura.









