Menos de 0,001% dos fundos abissais marinhos foram fotografados ou filmados

Um grupo de cientistas da organização Ocean Discovery League calcula que menos de 0,001% dos fundos marinhos para lá dos 200 metros de profundidade foram fotografados ou filmados.

Filipe Pimentel Rações

Um grupo de cientistas da organização Ocean Discovery League calcula que menos de 0,001% dos fundos marinhos para lá dos 200 metros de profundidade foram fotografados ou filmados.

Apesar de cobrirem cerca de 60% da superfície da Terra, essas zonas escuras e misteriosas – e repletas de vida, contrariamente ao que se possa pensar – continuam praticamente inexploradas, tendo os humanos visto, com os seus próprios olhos ou através de equipamentos de captação de imagem, somente uma área equivalente a um décimo da área da Bélgica.

A revelação é feita num artigo divulgado recentemente na revista ‘Science Advances’ e baseou-se na análise de perto de 44 mil mergulhos de profundidade realizados desde 1958 nas águas de 120 países diferentes. Apesar de a exploração científica das profundezas marinhas já acontecer há várias décadas, calcula-se que 65% das observações visuais desses mundos aconteceram sobretudo a poucas milhas da costa de apenas três países: Estados Unidos da América (EUA), Japão e Nova Zelândia.

Além disso, os autores do estudo chamam a atenção para a desigualdade no que toca ao financiamento para explorar os abismos dos oceanos, uma vez que somente cinco países – os três anteriores mais a França e a Alemanha – são responsáveis por 97% de todas as observações feitas em mergulhos de profundidade.

Como tal, argumentam que mesmo o pouco que até agora pudemos ver das áreas mais recônditas dos mares e oceanos do planeta Terra se baseia numa amostra “incrivelmente pequena” que, nem de perto nem de longe, é representativa das diversidades biológica e ecológica que esses mundos ainda escondem.

Ainda, dizem que o foco de investigação tem recaído mais intensamente sobre montes e desfiladeiros submarinos, com outros marcos geomorfológicos, como as planícies abissais, a continuarem largamente por explorar.

Numa altura em que a atenção de muitos, desde empresas a governos, se vira cada vez mais para os minerais no leito marinho, os cientistas têm incessantemente apelado à precaução, instando a comunidade internacional a não avançar “às cegas” para a mineração em mar profundo até se ter um conhecimento consolidado sobre o que existe nessas zonas mais desconhecidas do nosso planeta e sobre os possíveis impactos que as atividades extrativas neles poderão ter.

Por isso, os autores deste estudo defendem a expansão dos esforços de exploração e, com avanços tecnológicos a permitirem criar ferramentas mais pequenas, mais acessíveis e mais fáceis de usar, preveem uma “proliferação de tecnologia” por todo o mundo que deverá permitir um maior acesso ao oceano profundo a uma muito maior comunidade de cientistas, independentemente do país onde estão sediados.

“À medida que enfrentamos ameaças aceleradas ao oceano profundo – desde as alterações climáticas à potencial mineração e exploração de recursos – esta exploração limitada de uma tão vasta região torna-se um problema crítico tanto para a ciência como em termos de políticas”, diz Katherine Bell, primeira autora do artigo.

“Precisamos de compreender muito melhor os ecossistemas e processos do oceano profundo para tomar decisões informadas sobre a gestão e conservação dos recursos.”

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