Microalgas afinal são mais resilientes às alterações climáticas do que se pensava. E isso são boas notícias

Algas marinhas microscópicas, conhecidas como fitoplâncton, têm uma capacidade maior do que se pensava para se adaptarem aos efeitos das alterações climáticas, como a redução da disponibilidade de nutrientes.

Filipe Pimentel Rações

Algas marinhas microscópicas, conhecidas como fitoplâncton, têm uma capacidade maior do que se pensava para se adaptarem aos efeitos das alterações climáticas, como a redução da disponibilidade de nutrientes. Essa escassez deverá agravar-se à medida que os oceanos do planeta, especialmente as águas mais superficiais, aquecerem ainda mais ao longo das próximas décadas.

É precisamente nas camadas mais cimeiras da coluna de água que o fitoplâncton se encontra em maiores números, pois, sendo seres que se alimentam através de fotossíntese, têm de estar perto das zonas onde a radiação solar é capaz de penetrar. Tal como as plantas terrestres e muitas outras algas, esses organismos minúsculos absorvem dióxido de carbono e libertam oxigénio, produzindo cerca de 50% do oxigénio total que respiramos.

Por isso mesmo, é importante perceber como é que a transformação das condições ambientas marinhas causadas pelo aquecimento global afetarão o fitoplâncton, que formam também a base de muitas cadeias alimentares, pelo que o colapso das suas populações muito provavelmente terá impactos imprevisíveis em outras inúmeras espécies.

Contudo, cientistas do Japão, Coreia do Sul e Estados Unidos acreditam que esse cenário devastador poderá, afinal, não acontecer. Num artigo publicado esta quarta-feira na ‘Science Advances’, os especialistas analisaram dados sobre o fitoplâncton das camadas mais superficiais do oceano e concluíram que, mesmo em ambientes com poucos nutrientes, essas microalgas continuarão a proliferar.

David Karl, Professor de oceanografia da Universidade do Havai e um dos autores, explica que, em condições de escassez de nutrientes, o fitoplâncton pode substituir o fósforo, do qual geralmente depende para produzir energia, por enxofre. Ao longo do tempo, será expectável que sejam cada vez mais os indivíduos de uma mesma comunidade de fitoplâncton que prefiram o enxofre ao fósforo, tornando essa população mais resiliente aos efeitos das alterações climáticas na disponibilidade de nutrientes.

Por isso, os cientistas destacam a importância da ‘plasticidade’ do fitoplâncton, isto é, a sua capacidade para se moldar com sucesso às alterações das condições do ambiente onde vive. Mas não se ficaram por aí.

Para perceberem como oceanos mais quentes podem afetar o fitoplâncton, a equipa criou simulações climáticas em computador, e percebeu que, sem contemplar a plasticidade desses organismos, as previsões apontam para perdas populacionais de 8% em todo o mundo nas próximas décadas. No entanto, quando inseriram essa capacidade nos modelos, as previsões indicavam um aumento de até 5% até ao final deste século.

Eun Young Kwon, outro dos autores do artigo, diz que em certas regiões do mundo, especialmente nas subtropicais, o aumento das populações de fitoplâncton pode mesmo chegar aos 200%, aumentando também a capacidade dos oceanos para capturar carbono diretamente da atmosfera.

Contudo, o cientista avisa que esta plasticidade do fitoplâncton não nos deve deixar descansados, pois essa capacidade não torna esses organismos imunes “às alterações climáticas causadas pelos humanos”. Por exemplo, o aumento da acidez dos oceanos pode dificultar ou mesmo impossibilitar o desenvolvimento e a sobrevivência de alguns tipos de microalgas, “o que pode levar a mudanças de grande escala nos ecossistemas”.

Axel Timmermann, que também esteve envolvido na investigação, diz que os modelos usados para prever os impactos das alterações climáticas devem incluir necessariamente a forma como o fitoplâncton responde a várias pressões. “Isto é necessário para prever o futuro da vida marinha no nosso planeta”, alerta.

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