Migrações climáticas são mais do que só uma questão de “ir ou ficar”



À medida que as alterações climáticas se abatem sobre o mundo de formas cada vez mais intensas, algumas regiões são mais afetadas do que outras e, quando no limite, as comunidades que aí vivem têm de tomar uma decisão: ou deixam para trás tudo o que sempre conheceram e partem rumo ao desconhecido na esperança de uma vida melhor ou ficam e tentam adaptar-se.

No entanto, um grupo de mais de três dezenas de investigadores de vários países acredita que a realidade da migração climática é mais complexa e vai além dessa dicotomia “ir ou ficar”.

Num comentário publicado recentemente na revista ‘Nature Climate Change’, os especialistas dizem que as pessoas e as famílias que se veem confrontadas com essa decisão pesam muito mais fatores do que somente as condições ambientais. Para avaliarem os riscos e para planearem os seus futuros, consideram laços sociais e raízes e identidade culturais, bem como fatores económicos.

Por isso, mesmo quando essas pessoas se deslocam e alojam noutros locais ou países, esses fatores podem fazer que com voltem aos seus locais de origem. Os investigadores dizem que essas deslocações climáticas, que podem ser temporárias ou sazonais, são uma terceira alternativa ao “ir ou ficar” e chamam-lhe “resiliência ancorada”, ou “tethered resilience” no inglês original.

Para a equipa, nessas circunstâncias os impactos climáticos perdem proeminência do processo de tomada de decisão dessas pessoas e comunidades, parecendo prevalecer fatores económicos, sociais, culturais e demográficos.

Sobre a “resiliência ancorada”, Brianna Castro, da Faculdade de Ambiente da Universidade de Yale e coautora do estudo, explica que “este conceito realmente muda a narrativa sobre a migração climática”.

“As pessoas são complexas”, refere, em comunicado, a socióloga. “Têm forças sociais, forças económicas, ideias e objetivos para o seu futuro, e a decisão de ficar ou partir está entrelaçada em todos esses fatores. Elas escolhem ativamente ficar numa área climaticamente impactada, não porque estejam presas, mas porque estão profundamente ligadas a ela.”

No artigo, os investigadores dão vários exemplos de casos de “resiliência ancorada”, como famílias no arquipélago das Fiji, no Pacífico, que escolhem ficar em áreas costeiras a desaparecer sob as ondas, mas que fazem planos para que os seus filhos se mudem para zonas mais interiores e construam casas em terrenos mais altos. Além disso, na Guatemala e no Bangladesh rural, jovens e mulheres dedicam-se a atividades económicas que os ajudem a ser mais resilientes para que possam continuar a viver em áreas fortemente afetadas pelas alterações climáticas.

Com este artigo, os autores salientam que a decisão de ficar não deve ser vista como uma desistência ou uma adaptação fracassada. Bishawjit Mallick, investigador da Universidade de Utrecht e primeiro autor, diz que para muitas pessoas a escolha não é entre ficar ou partir para sempre, mas sim de uma adaptação que mistura um pouco de ambas.

“A mobilidade mais ou enraizamento torna-se um terceiro caminho, uma estratégia para construir um futuro debaixo de risco”, refere, acrescentando que o conceito de “resiliência ancorada” permite “ampliar o significado da adaptação climática e ajudar legisladores e investigadores a pensarem sobre soluções flexíveis e específicas para cada contexto”.






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