Mineração em mar profundo ameaça mais de metade dos moluscos que vivem em fontes hidrotermais. Numbats recuperam mas não estão fora de perigo

A revelação é feita na mais recente atualização da Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), o catálogo de referência global para o estado de conservação da biodiversidade.

Filipe Pimentel Rações

Sessenta e dois por cento das espécies endémicas conhecidas de moluscos que vivem em fontes hidrotermais por todo o mundo estão em risco de extinção devido à mineração em mar profundo para a extração de minerais valiosos.

A revelação é feita na mais recente atualização da Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), o catálogo de referência global para o estado de conservação da biodiversidade.

As fontes hidrotermais que brotam das profundezas marinhas, jorrando água a centenas de graus Celsius, aquecida nas entranhas da Terra, são dos ambientes mais extremos do planeta, mas, ainda assim, são focos de uma grande diversidade de formas de vida. Em torno dessas formações, agregam-se várias espécies de animais, adaptados a condições que seriam a morte de muitos outros.

De acordo com a UICN, muitos desses moluscos, como caracóis, amêijoas, mexilhões e lapas, que vivem a profundidades de até cinco mil metros, só foram descobertos na última década, mas, apesar disso, estão já em risco de extinção por causa das perturbações causadas pelos humanos.

Explicam os especialistas que a exploração do leito marinho e a extração de minerais, cada vez mais procurados para uso em novas tecnologias, criam plumas de sedimentos que asfixiam a vida animal e impedem que sejam capazes de absorvem nutrientes da água envolvente. Uma das espécies de moluscos na “corda bamba” da sobrevivência é o caracol Lirapex felix, que acaba de entrar na Lista Vermelha já com o estatuto de “Criticamente em perigo”, por causa da exploração de minerais que ocorre no leito do Oceano Índico.

Tal como essa, muitas outras espécies que dependem das fontes hidrotermais enfrentam ameaças semelhantes, especialmente quando fora das jurisdições nacionais. Mas há esperança, pois, segundo a análise, mais de 30 espécies de moluscos em todo o mundo estão classificadas como “Pouco preocupantes” por viverem em fontes hidrotermais localizadas dentro de áreas marinhas protegidas.

O caracol Provanna exquisita é uma das espécies de moluscos das profundidades que estatuto “Pouco preocupante” por viver em Áreas Marinhas Protegidas. Foto: Chong Chen.

Uma dessas espécies é a Provanna exquisita, um caracol de concha alongada e de tons alaranjados que só é encontrado no refúgio de vida selvagem “Mariana Arc of Fire”, no Oceano Pacífico, onde a mineração não é permitida.

“Esta avaliação global revela que os moluscos endémicos das fontes hidrotermais do mar profundo são um dos mais altamente ameaçados de todos os grupos de animais, num momento crítico para o seu futuro”, diz, citada em nota, Julia Sigwart, membro do grupo de especialistas em moluscos da UICN.

Boas notícias para o numbat e más para uma pequena rã do deserto

Além dos moluscos, a nova atualização da Lista Vermelha da UICN revela uma melhoria no estatuto de conservação do numbat (Myrmecobius fasciatus), um marsupial da Austrália, que passou da categoria de “Em perigo” para “Quase ameaçado”.

Em tempos abundante no sul australiano, o numbat viu os seus números caírem a pique, para cerca de 300 indivíduos, no final da década de 1970 por causa da introdução, por mão humana, e da disseminação de gatos e de raposas. Desde então, entidades governamentais, organizações conservacionistas e cientistas, através de medidas de mitigação da predação por gatos e raposas, conseguiram recuperar a população de numbats, que atualmente se estima entre os dois mil e os três mil animais.

Contudo, a espécie ocupa ainda apenas 0,04% da sua área de distribuição original, com os predadores introduzidos a continuarem a ser uma ameaça significativa.

Além do numbat, cinco outras espécies de marsupiais australianos, reconhecidos recentemente como espécies de direito próprio depois de trabalhos de revisão taxonómica, foram declaradas extintas na mais recente versão da Lista Vermelha. São elas a Bettongia haoucharae, a Dasycercus cristicauda, a D. archeri, a D. woolleyae e a D. marlowi. Há pelo menos 60 anos que não há registos da presença de indivíduos de qualquer uma dessas espécies.

Os cientistas chamam também a atenção do mundo para o perigo crescente enfrentado por uma pequena rã que só é encontrada no sul de África. Trata-se da Breviceps macrops, que vive em dunas na costa ocidental da África do Sul e da Namíbia, numa área estreita com não mais do que 12 quilómetros de comprimento.

A pequena rã Breviceps macrops vive nas dunas da África do Sul e da Namíbia. Viu o seu estattuto agravar-se de “Quase ameaçado” para “Vulnerável”, por causa da exploração mineira e expansão de infraestruturas. Foto: Jeanne Tarrant.

O anfíbio, de corpo arredondado e patas relativamente curtas, passou de “Quase ameaçado” para “Vulnerável”, sobretudo devido à exploração de diamantes e ao desenvolvimento de infraestruturas energéticas. Os especialistas preveem que a expansão industrial, que inclui um projeto de hidrogénio verde, afetará um terço da área de distribuição da rã na África do Sul e dois terços na Namíbia ao longo dos próximos 20 anos.

O comércio desses animais para o mercado de animais de estimação exóticos é apontado como um fator adicional de pressão que está a gerar preocupação entre os conservacionistas. A juntar a tudo isso, as alterações climáticas, em particular o calor extremo, podem também ameaçar ainda mais a sobrevivência da espécie.

Sem ações de conservação urgentes, dizem os cientistas, a população de Breviceps macrops pode ser reduzida em 20% nos próximos 10 anos.

“A vida na Terra adaptou-se para sobreviver nos habitats mais hostis e invulgares”, diz Grethel Aguilar, diretora-geral da UICN. “Agora, à medida que aumentam as pressões sobre a biodiversidade por todo o planeta, mesmo as criaturas com as estratégias de sobrevivência mais engenhosas estão sob ameaça”, acrescenta.

“Mas não nos esqueçamos que há uma solução para a crise da biodiversidade: a conservação da natureza funciona”, assegura a responsável.

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