Lisboa foi palco, em outubro, de um encontro que liga moda, sustentabilidade e justiça social. A conferência Textile Exchange reuniu especialistas, marcas e produtores de todo o mundo para debater cadeias de produção ética e inovação social. Entre os participantes estiveram Maria Valdenira Almeida, coordenadora da cadeia de algodão orgânico da VEJA, e João Felix de Sousa, agricultor e apicultor brasileiro que fornece algodão para a marca.
Sustentabilidade como princípio
Para a VEJA, a sustentabilidade não é apenas uma estratégia de marketing. Desde a sua criação, a marca optou por trabalhar diretamente com produtores de algodão orgânico, pagando-lhes um valor três vezes superior ao preço de mercado. Sobre este compromisso, Maria Valdenira explica, em entrevista à Green Savers, que a VEJA “incentiva e prioriza o uso do algodão agroecológico, pois entende a importância da prática na qualidade de vida dos agricultores e agricultoras e na preservação do meio ambiente.”
Agroecologia: cuidar da natureza e das pessoas
A coordenadora descreve a agroecologia como um movimento que aplica “os princípios da ecologia, ou seja, a convivência harmoniosa entre os seres humanos e a natureza, à agricultura”. Para além de proteger o solo e o meio ambiente, esta abordagem contribui para a estabilidade económica das famílias produtoras, reforçando o impacto social do projeto.
Ao longo de quase duas décadas, Maria testemunhou mudanças profundas na relação das comunidades com o território. “Imediatamente penso em duas principais transformações: a primeira é referente às famílias se conscientizarem sobre o impacto negativo que os agrotóxicos têm sobre suas próprias vidas – isso mudou não só a forma de plantar, mas também a forma de pensar sobre alimentação, saúde e qualidade de vida. Além disso tem a questão do cuidado com a natureza, da conexão entre saúde do solo e saúde do corpo. Antes o meio ambiente era visto como algo à parte, ao longo dos anos, foi ficando claro que cuidar da natureza é cuidar da gente, da família, da comunidade”, conta.
Desafios na certificação do algodão orgânico
No entanto, a certificação do algodão orgânico não é um processo fácil. Muitas famílias encontram dificuldades relacionadas com a leitura, a escrita e a compreensão de processos burocráticos. A coordenadora explica que a maior dificuldade é o baixo acesso a educação que muitas dessas famílias tiveram. “Isso impacta diretamente na escrita e na leitura, o que torna os processos burocráticos de assinatura de documentos e questões legais mais complicados”, revela. Apesar disso, acrescenta, “com o apoio de organizações e técnicos presentes no campo os agricultores e agricultoras com dificuldade de ler também conseguiram incluir-se no movimento e contornar essa dificuldade.”
O acompanhamento das associações de produtores é constante. “A VEJA acompanha de perto todos os processos de produção, para garantir que estejam alinhados com os nossos pilares. Trabalhamos com cooperativas e associações locais para apoiar as práticas agroecológicas e promover a inclusão de jovens e mulheres na agricultura familiar”, diz.
Pagamento justo e impacto económico
O pagamento justo tem efeitos concretos: “ao optarmos por investir no comércio justo em vez de destinar recursos à publicidade, pagamos mais aos produtores. Os contratos assinados diretamente com as associações de produtores no início de cada produção agrícola, são um dos nossos grandes diferenciais. A VEJA não assume a matéria-prima como uma commodity. Definimos os valores antes mesmo do cultivo, num processo transparente e participativo, que permite aos agricultores planarem-se financeiramente e trabalharem com segurança. Essa abordagem proporciona mais autonomia e liberdade financeira a quem está na base da nossa cadeia produtiva”, explica.
Já impacto da agroecologia vai além do ambiente. Segundo a responsável, “garante uma fonte de renda para famílias que muitas vezes passam esse trabalho de geração em geração, valorizando o esforço e o conhecimento de quem produz, além de fornecer alimento para as famílias ao longo do ano”.
Consumidores atentos à origem
Para Maria, os consumidores estão cada vez mais atentos à origem e ao impacto dos produtos. “Acreditamos que existe um movimento de consumidores mais atentos para esta questão, mas não é a sua totalidade, claro. Muita gente chega aos produtos VEJA por ser um produto que conecta moda com lifestyle, e está tudo bem. Mas observamos cada vez mais pessoas interessadas em entender melhor a origem e o impacto dos produtos que consomem e isso deixa-nos muito felizes”, revela.
A premissa do nome VEJA é justamente essa: que as pessoas olhem além do produto, conhecendo as histórias e as pessoas por trás dele. É importante que, ao comprarem um calçado, entendam dos processos, das matérias-primas utilizadas e do respeito aos envolvidos em toda a produção. Ao escolher um calçado VEJA, os consumidores podem ter a certeza de que esses princípios são inegociáveis na nossa produção, Maria
A mensagem final da coordenadora é direta: “a premissa do nome VEJA é justamente essa: que as pessoas olhem além do produto, conhecendo as histórias e as pessoas por trás dele. É importante que, ao comprarem um calçado, entendam dos processos, das matérias-primas utilizadas e do respeito aos envolvidos em toda a produção. Ao escolher um calçado VEJA, os consumidores podem ter a certeza de que esses princípios são inegociáveis na nossa produção.”
A experiência no campo
Do outro lado da cadeia produtiva, João Felix de Sousa, agricultor e apicultor, partilha com a Green Savers a experiência de quem trabalha diretamente no campo. Há mais de 20 anos ligado ao algodão agroecológico, João recorda: “conheci o projeto por meio da ONG Esplar. Na altura, eu usava muitos pesticidas na plantação, e a ONG começou a fazer reuniões e formações sobre conservação do solo, fiquei animado. Eu ainda não conhecia a VEJA. Decidi entrar no projeto porque não queria mais usar veneno. A Esplar decidiu usar-me de exemplo, nossa ideia inicial foi recuperar uma área degradada que eu tinha no fundo de casa, para provar que o projeto funcionava”.
A parceria com a VEJA começou mais tarde. “Depois disso, conheci a VEJA por meio de um dos fundadores, François Ghislain, que visitou a minha casa e contou-me sobre o projeto da marca de utilizar materiais ecológicos e trabalhar de maneira justa com toda a cadeia produtiva. Em 2014 participei da criação da ACEPA, Associação de Certificação Participativa Agroecológica – através dela agricultores da região uniram-se e passaram a vender algodão diretamente para a VEJA”, conta.
João destaca que “a diferença é enorme”. A produção convencional “depende de muito veneno e água, além de degradar o solo com o tempo. Já a produção orgânica e agroecológica mantém o solo vivo e fértil, mesmo após anos de cultivo, e oferece mais diversidade na plantação”, especifica.
Conheci o projeto por meio da ONG Esplar. Na altura, eu usava muitos pesticidas na plantação, e a ONG começou a fazer reuniões e formações sobre conservação do solo, fiquei animado. Eu ainda não conhecia a VEJA. Decidi entrar no projeto porque não queria mais usar veneno, João
Transformação familiar e comunitária
O impacto na vida familiar e comunitária também é evidente. “Mudou muito. Todo o conhecimento sobre agroecologia que chegou pelo projeto disseminou-se pela comunidade. Mesmo quem não entrou no projeto do algodão diretamente aprendeu com ele: passou a plantar mais de uma cultura, reduziu o uso de pesticidas e diminuiu as queimadas”, confidencia.
Para João, o modelo é replicável. “O que pode ser replicado em qualquer lugar é o princípio da agroecologia — respeitar o tempo da natureza, diversificar as culturas e fortalecer o trabalho coletivo das comunidades. Quando há organização, apoio técnico e mercado justo: o solo se recupera, a renda melhora e as pessoas voltam a acreditar no valor do campo”, explica.
A importância das mulheres
O papel das mulheres também tem destaque. “No início a minha comunidade era cheia de preconceitos e machismo. Eu sempre ajudei minha esposa nos afazeres domésticos, e as pessoas achavam estranho, julgavam-me. Depois do projeto, com as rodas de conversa sobre género, isso mudou. Hoje temos muitas representantes mulheres ativas, mas ainda há espaço para ampliar a liderança feminina e incentivar que mais mulheres se vejam como protagonistas nesse setor”, afiança.
Sobre ver o seu algodão nos produtos da VEJA espalhados pelo mundo, diz que “é um motivo de muito orgulho”. “Lembro de estar no aeroporto e, sempre que via alguém com um ténis VEJA, eu dizia: ‘Olha aí, é o meu algodão.’ Sinto-me orgulhoso por representar minha comunidade e meu município, e por ver o nosso trabalho sendo reconhecido e valorizado no mundo todo”, remata.














