Uma equipa internacional de investigadores demonstrou que os montes submarinos de coral de águas frias localizados no sul do Golfo do México armazenam quantidades significativas de carbono ao longo de escalas de tempo geológicas.
O estudo, publicado na revista ‘Coral Reefs’, conta com a participação de duas cientistas portuguesas: Lélia Matos, do Centro de Ciências do Mar da Universidade do Algarve (CCMAR), e Joana Gafeira, da Kelpie Geoscience, uma consultora em matérias de ciências marinhas.
Diz o CCMAR, em nota, que trabalhos anteriores de Lélia Matos criaram a base científica desta nova avaliação, que “evidencia o papel dos ecossistemas de mar profundo no ciclo geológico do carbono”.
Nos últimos anos, muito se tem ouvido falar de “carbono azul”, o que é absorvido e fica armazenado em ecossistemas costeiros, como pradarias de ervas marinhas, mangais e sapais, que têm vindo a ganha relevo no leque de soluções de base natural disponíveis para mitigar as alterações climáticas. No entanto, este grupo de investigadores diz que menos atenção tem sido prestada aos contributos que podem ser dados pelos habitats do oceano profundo.
Este estudo centra-se nos três montes de coral de águas frias (chamados Ixchel, Ah Xoc and Chaac) da Província de Montes de Campeche, situada no sul do Golfo do México. Estas grandes estruturas do fundo marinho, formadas ao longo de centenas de milhares de anos por corais criadores de recifes (também conhecidos por corais duros), funcionam como reservatórios naturais onde carbono orgânico e inorgânico se acumulam e permanecem armazenados durante milhões de anos.
Para desvendarem este processo, os investigadores combinaram análises de sedimentos com cartografia de alta resolução do fundo marinho. De acordo com a equipa, isso permitiu reconstruir cerca de 250 mil anos de acumulação de carbono em toda a província de montes de coral.
Os resultados mostram que a acumulação de carbono nesses montes submarinos é três a nove vezes superior à registada nos sedimentos do fundo marinho envolvente.
Extrapolando estes dados para toda a área cartografada, a equipa estima que a Província de Montes de Campeche armazene aproximadamente 18,5 milhões de toneladas de carbono, que ficarão retidas durante milhões de anos.
Diz o CCMAR que a cronologia dos sedimentos e as reconstruções paleoceanográficas desenvolvidas em trabalhos anteriores na Província de Montes de Campeche não só foram integrados nesta investigação, como foram determinantes para estabelecer o enquadramento temporal utilizado na quantificação da acumulação de carbono ao longo dos últimos 250 mil anos.
Por funcionarem como reservatórios de carbono a longo prazo, os recifes de coral de águas frias podem desempenhar um papel mais relevante do que se pensava no ciclo global do carbono, destacam os autores deste trabalho. E defendem que estes resultados reforçam a importância de continuar a investigar estes habitats “vulneráveis e ainda pouco explorados”, demonstrando igualmente o valor da colaboração científica internacional e da integração de dados e conhecimento (produzidos ao longo de vários anos) para aprofundar a compreensão do funcionamento dos ecossistemas marinhos e do seu papel na regulação do clima.









