Muitos países falharão metas internacionais sobre transformação dos sistemas de produção de alimentos

O aviso é lançado num estudo publicado, na revista ‘Nature Food’, pelo consórcio científico “Food Systems Countdown Initiative” (FSCI), liderado pelas universidades de Cornell e Johns Hopkins, pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) e pela Aliança Global para a Melhoria da Nutrição.

Redação

Deverão ser poucos os países que até ao final da década alcançarão as metas internacionais que assumiram sobre a transformação dos seus sistemas de produção alimentar, para alinhá-los, por exemplo, com os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável.

O aviso é lançado num estudo publicado, na revista ‘Nature Food’, pelo consórcio científico “Food Systems Countdown Initiative” (FSCI), liderado pelas universidades de Cornell e Johns Hopkins, pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) e pela Aliança Global para a Melhoria da Nutrição.

Os investigadores analisaram os sistemas alimentares de 197 países, aplicando-lhes 44 indicadores distribuídos por cinco grandes áreas: dietas, nutrição e saúde; ambienta, recursos naturais e produção; subsistência, pobreza e equidade; governança; e resiliência.

A equipa, composta por dezenas de cientistas, diz que esta é a mais abrangente avaliação do desempenho dos sistemas alimentares alguma vez feita, e que o trabalho não se limita a dizer se os países estão a ir na direção certa, mas também o caminho que ainda têm pela frente para chegar às metas internacionais.

“É essa distinção entre acompanhar e avaliar o desempenho que transforma um exercício de monitorização numa ferramenta de responsabilização”, diz Bianca Carducci, da Columbia Climate School e primeira autora do estudo.

A análise revela que para grande parte dos indicadores aplicados a maioria dos países continua a estar aquém, embora o prazo para alcançar essas metas se aproxime rapidamente.

Os investigadores destacam, por exemplo, o indicador “emissões de gases com efeito de estufa dos sistemas alimentares” como um dos que está mais longe de ser alcançado. Em média, os países têm ainda 75% do caminho para percorrer até 2030.

Dizem os autores do estudo que a maiorias das regiões do mundo precisaram de “mudanças anuais drásticas” para conseguirem chegar a essas metas. África precisaria, no mínimo, de melhorias de 15% a 20% por ano em 23 indicadores, e a Ásia teria de reduzir a insegurança alimentar na região em mais de 63% todos os anos.

As regiões mais ricas não ficam melhor na fotografia. Segundo a análise, a Europa tem 19 indicadores que, na tendência atual, continuam a não ser alcançáveis até 2030.

Outros indicadores estão a regredir, como o espaço de participação da sociedade civil, a responsabilização governamental, as vendas de alimentos ultra-processados, as captações de água para a agricultura, o uso de pesticidas e mudanças nas emissões dos sistemas alimentares.

“Mesmo com uns adicionais 20 anos de esforço, as metas para alguns indicadores continuariam essencialmente fora de alcance, como as emissões dos sistemas alimentares, o trabalho infantil e a insegurança alimentar”, lê-se no artigo.

“E isso porque muitos países ou estão estagnados, a ir na direção errada ou exigem taxas de mudança que excedem largamente qualquer progresso anual observado ao longo do tempo”, acrescentam.

Apesar do quadro desanimador, os investigadores dizem que têm sido feitos progressos em diversos indicadores e que ainda há razão para acreditar que alguns países conseguirão alcançar as metas com as quais se comprometeram.

A equipa diz que é urgente impulsionar melhorias em todos os indicadores, com prioridade em áreas como o acesso a alimentos, a insegurança alimentar e as emissões dos sistemas de produção.

“A transformação dos sistemas alimentares é uma responsabilidade partilhada. Os indicadores da governança, incluindo a eficácia governamental, responsabilização e participação da sociedade civil, não são apenas uma categoria entre cinco. São os fatores que possibilitam o progresso. A sua melhoria permite o avanço em todo o sistema”, defende Lawrence Haddad, diretor-executivo da Aliança Global para a Melhoria da Nutrição e coautor do trabalho.

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