“Naturalidade” é fator determinante para que pessoas aceitem (ou não) soluções para combater crise climática

Cientistas dizem que o fator “naturalidade”, definida como a qualidade do que reflete os processos da Natureza, é fundamental para aceitar soluções climáticas. E é muito mais determinante para prever o apoio a soluções e tecnologias climáticas do que outros fatores, como as perceções de riscos e benefícios e até mesmo a compreensão que as pessoas têm da tecnologia.

Redação

Com as alterações climáticas a fazerem-se sentir com cada vez mais força a cada ano que passo, aumenta o leque de possíveis soluções para mitigar essa crise planetária.

Uma investigação publicada recentemente na revista ‘Communications Earth & Environment’, liderada por psicólogos da Universidade de Colorado em Boulder (Estados Unidos da América), quis perceber por que razão mesmo soluções eficazes para combater as alterações climáticas podem ser menos populares do que outras com menor eficácia.

O fator “naturalidade”, definida como a qualidade do que reflete os processos da Natureza, é fundamental e, segundo os autores, é muito mais determinante para prever o apoio a soluções e tecnologias climáticas do que outros fatores, como as perceções de riscos e benefícios e até mesmo a compreensão que as pessoas têm da tecnologia.

Por isso, consideram que mudar a forma como essas soluções são apresentadas e comunicadas, como comparando as tecnologias a fenómenos ou dinâmicas naturais, “pode levar as pessoas a confiarem e a aceitarem até mesmo soluções de engenharia, como energia nuclear”.

“Por vezes assumimos que podemos simplesmente desenvolver soluções para responder às alterações climáticas e o público dirá ‘Ok. Vamos usá-las’, [mas] o nosso estudo mostra que frequentemente não é a própria tecnologia, mas a forma que ela é comunicada que molda a resposta do público”, explica Leaf Van Boven, principal coautor do estudo.

Dizem os investigadores que as pessoas tendem a ver como naturais coisas que tenham a mínima intervenção humana, que sejam feitas a partir de elementos encontrados na Natureza e que sejam culturalmente familiares.

Para perceberem que levas as pessoas a aceitarem mais umas soluções do que outras, fizeram um inquérito a cerca de mil pessoas nos Estados Unidos da América sobre 10 métodos para reduzir ou remover carbono da atmosfera, da plantação de árvores à captura direta de carbono da atmosfera, passando pelas energias nuclear, solar e eólica.

Aos inquiridos foi perguntado se estariam dispostos a pagar, via impostos, para que essas soluções fossem aplicadas a larga escala. Os cientistas perceberam que quanto mais uma tecnologia ou solução for descrita como refletindo algo que acontece na Natureza (como dizer que a captura direta de carbono imita a forma como as plantas captam carbono da atmosfera através das folhas), maior será a aceitação do público.

Ainda assim, avisam que essa inclinação para a “naturalidade” pode ter um lado negro, ser usada para enganar as pessoas e perpetuar a crise climática. A equipa diz que, atualmente, é frequente as empresas usarem imagéticas associadas à Natureza para branquearem os impactos ambientais de vários produtos que, na verdade, nada têm de sustentável. É o já tão conhecido “greenwashing”.

Além disso, a preferência pelo que é natural pode também ser um obstáculo no caminho da mitigação climática, ao contribuir para a rejeição de soluções tecnológicas que podem ser fundamentais para combater a crise em que o planeta se encontra, das soluções de geoengenharia (como criar um escudo de partículas entre a Terra e o Sol para reduzir a quantidade de radiação que atinge e aquece o nosso planeta) à carne artificial criada em laboratório.

“Se queremos combater as alterações climáticas, teremos de encontrar forma de aceitar uma ampla variedade de soluções tecnológicas”, diz Van Boven. “Neste momento, estamos a resistir a tudo o que pareça minimamente artificial.”

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