A The Navigator Company estima ter reduzido em quase 300 mil toneladas as emissões de CO₂ dos seus complexos industriais através de projetos apoiados pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). Os investimentos abrangem unidades em Setúbal, Figueira da Foz, Aveiro e Vila Velha de Ródão e representam cerca de 193 milhões de euros, dos quais 76 milhões são financiados pelo PRR.
O balanço foi apresentado esta segunda-feira, 21 de setembro, durante uma visita do secretário de Estado da Economia, João Rui Ferreira, ao complexo industrial da empresa em Setúbal.
Entre os projetos estão uma caldeira de recuperação em Setúbal, um forno de cal a biomassa na Figueira da Foz, uma unidade de cogeração em Aveiro, uma caldeira a biomassa em Vila Velha de Ródão e centrais fotovoltaicas nos complexos de Aveiro, Figueira da Foz e Vila Velha de Ródão.
No conjunto, os seis projetos deverão permitir uma redução de cerca de 300 mil toneladas de emissões de âmbito 1 e 2. A Navigator compara este valor às emissões anuais de aproximadamente 70 mil automóveis.
A empresa tinha definido, em 2019, um objetivo de reduzir em 86% as suas emissões até 2035, tendo 2018 como ano de referência. Em 2025, a redução alcançava 37%, segundo os dados divulgados pela empresa, que prevê chegar aos 54% em 2027, correspondentes a cerca de 415 mil toneladas de CO₂.
Desde 2018, o investimento em medidas de descarbonização ascende a 352 milhões de euros. Para o período entre 2027 e 2035 estão em análise novos projetos de utilização de biomassa e eletrificação, aos quais a Navigator associa um potencial de redução adicional de 251 mil toneladas de CO₂.
Um dos projetos já em desenvolvimento é o LK2BM, em Setúbal, que prevê a conversão de um forno de cal para utilização de biomassa em substituição do gás natural.
A redução da utilização de combustíveis fósseis é também apontada pela empresa como uma forma de diminuir a exposição aos preços e à volatilidade dos mercados energéticos. António Redondo, CEO da Navigator, considera, contudo, que existem obstáculos à eletrificação da indústria, nomeadamente relacionados com o preço da eletricidade e o acesso à rede.
“O preço da eletricidade europeia continua largamente indexado ao gás, mesmo quando a maior parte da eletricidade já não é produzida a partir de gás”, afirmou. Para o responsável, são necessários contratos de longo prazo acessíveis, ligações à rede compatíveis com os calendários de investimento e preços que reflitam o atual mix de produção elétrica.
Da descarbonização aos bioprodutos
A participação da Navigator no PRR não se limitou aos investimentos destinados a reduzir as emissões das suas fábricas. A empresa integrou também a Agenda Mobilizadora From Fossil to Forest, dedicada ao desenvolvimento de soluções de base celulósica.
O projeto reuniu mais de 20 parceiros, entre empresas, universidades e centros de investigação, e envolveu um investimento próximo dos 94 milhões de euros. Entre as soluções desenvolvidas estão pastas e papéis para embalagem, papéis com propriedades barreira, biocompósitos, sensores em papel e produtos de celulose moldada.
Um dos projetos chegou já à escala industrial. No complexo de Aveiro entrou em funcionamento uma linha para produção de soluções de take-away e tableware a partir de fibra virgem de Eucalyptus globulus. A empresa apresenta-a como a primeira linha industrial totalmente integrada com esta fibra.
A aposta enquadra-se no desenvolvimento de alternativas de base renovável a produtos de origem fóssil, nomeadamente plásticos de utilização única.
Ao todo, a Navigator esteve envolvida em 90 projetos apoiados pelo PRR, incluindo iniciativas de digitalização e modernização da atividade florestal. Segundo a empresa, estes investimentos permitiram acelerar projetos de descarbonização, inovação e modernização industrial.
António Redondo defende que o apoio público tem um papel particularmente relevante em projetos em que os benefícios para a sociedade — como a redução de emissões ou da dependência energética externa — ultrapassam o retorno direto para as empresas.
“Houve sucessivas reprogramações, muitas por falta de execução no setor público, mas não podemos deixar de questionar, num dia como o de hoje, quantos projetos de investimento produtivo verde teríamos realizado se os apoios tivessem sido mais equilibrados entre o público e o privado”, afirmou.
Para o CEO, a capacidade industrial deve também ser considerada na avaliação do impacto destes investimentos. “Perder uma fábrica é mau. Perder um ecossistema é praticamente irreversível”, afirmou António Redondo.









