Nem uma área protegida oferece refúgio total ao maior macaco do mundo

Classificado como espécie “Vulnerável” na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza, o mandril está a ser expulso dos locais onde vive num parque nacional na Guiné Equatorial devido à crescente presença de caçadores.

Filipe Pimentel Rações

O mandril (Mandrillus sphinx) é considerado o maior macaco de África e também do mundo, podendo os machos chegar aos 30 quilogramas de peso e ter quase um metro de comprimento.

Classificado como espécie “Vulnerável” na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza, este primata está a ser expulso dos locais onde vive num parque nacional na Guiné Equatorial devido à crescente presença de caçadores.

Conhecidos pela sua face colorida (mais marcante nos machos adultos), os mandris desempenham um papel ecológico fundamental ao dispersarem pelas florestas tropicais húmidas onde vivem as sementes dos frutos dos quais se alimentam, ajudando a recuperar e a manter a biodiversidade e a saúde dos habitats.

Mas uma investigação publicada recentemente na revista ‘American Journal of Primatology’ vem lançar um alerta: no Parque Nacional Monte Alén, na Guiné Equatorial, a crescente presença de caçadores está a reduzir significativamente o habitat disponível para esses macacos, que tendem a evitar locais onde estão presentes os humanos.

Com base em imagens recolhidas por 35 armadilhas fotográficas colocadas no interior do parque, ao longo de quase 11.000 dias, os investigadores detetaram 79 mandris. Analisando os seus movimentos e comportamentos, concluem que é muito reduzida a probabilidade de os mandris estarem presentes perto de acampamentos de caçadores, mesmo aquém das delimitações do parque.

Para a equipa, isso sugere que a pressão, ainda que de forma indireta, causada pela caça em Monte Alén está a diminuir a quantidade de habitat seguro disponível para a espécie ameaçada, forçando os mandris a recuarem para áreas com menos perturbações. Os cientistas dizem que este trabalho mostra que nem mesmo em áreas protegidas os mandris estão totalmente seguros.

“Esta investigação mostra muito claramente que a pressão da caça está a afetar o habitat do mandril, mesmo dentro de uma área protegida como o parque nacional”, aponta Timothy Bray, da Bristol Zoological Society e principal coautor do estudo.

“Se queremos que os mandris sobrevivam em Monte Alén, temos de proteger os locais que são mais importantes para a espécie e trabalhar com as comunidades para reduzir a pressão sobre a vida selvagem”, refere, acrescentando que a pressão exercida pela presença dos caçadores humanos pode “rapidamente” tornar uma área inabitável para a espécie. Por isso, proteger áreas essenciais para os mandris e atuar nos fatores socioeconómicos que impulsionam a caça é fundamental para assegurar que o parque nacional se mantém um real refúgio para a espécie.

A investigação revela também que os mandris parecem preferir áreas perto de rios, o que os cientistas dizem indicar a importância de habitat ripícolas para os primatas terem acesso a água e a alimento e para escaparem ao calor.

Além disso, descobriu-se que os mandris são capazes de se adaptarem às variações ambientais causadas pelo clima, concentrando-se em locais com alimento abundante durante a época das chuvas e dispersando pela paisagem durante a época seca. No entanto, essa capacidade de adaptação está limitada a áreas onde a presença humana seja reduzida.

A Guiné Equatorial é um dos poucos países onde ainda existem mandris, a par do Gabão, dos Camarões e do Congo. Apesar de esforços para conservar a espécie nesses locais, os mandris continuam com uma tendência populacional em declínio. A destruição das florestas ondem vivem é uma grande ameaça à sua sobrevivência, mas a ameaça mais direta advém da caça furtiva, pois estes primatas, especialmente grandes machos, são procurados pela sua carne.

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