A agricultura portuguesa está hoje mais produtiva, mais profissionalizada e mais orientada para a criação de valor, apesar de operar com menos recursos humanos.
A conclusão é de um estudo divulgado esta quinta-feira pela consultora Consulai, com o título “Evolução do Trabalho na Agricultura em Portugal”, que revela que a produtividade o setor mais do que duplicou no país nas últimas três décadas, embora o número de trabalhadores a tempo inteiro tenha sofrido uma quebra significativa, dos mais de 430 mil para cerca de 220 mil.
De acordo com a análise, o aumento de produtividade, apesar da redução de trabalhadores, é reflexo da mecanização, da modernização das explorações e da reorganização empresarial que se tem vindo a registar no setor.
“Nos últimos anos, a agricultura portuguesa protagonizou uma transformação estrutural notável, tornando-se mais produtiva, mais profissional e cada vez mais tecnológica”, refere, em nota, Pedro Santos, diretor-geral da Consulai, que acrescenta que isso aconteceu apesar da escassez de mão-de-obra e da dificuldade do setor para atrair jovens qualificados.
Por tudo isso, o responsável salienta que “o futuro da agricultura em Portugal dependerá da nossa capacidade de qualificar pessoas, integrar tecnologia e valorizar o trabalho agrícola”. E avisa que “sem uma resposta clara, assente na renovação geracional, em políticas públicas eficazes e realistas, em mais capacitação e organização da produção e do setor, corremos o risco de perdermos o dinamismo conquistado, precisamente num momento em que mais precisamos de o consolidar e projetar no longo prazo”.
Além da falta de mão-de-obra, que já depende em mais de 40% de trabalhadores estrangeiros, o estudo revela que 81,5% dos trabalhadores portugueses no setor agrícola só possuem o grau do ensino básico. Por outro lado, os estrangeiros apresentam, em média, níveis de qualificação superiores aos portugueses: 7,5% possuem cursos superior, face a 2,7% dos trabalhadores nacionais.
Em termos de salário, a remuneração média agrícola cresceu cerca de 50% na última década, aproximando-se dos mil euros mensais. Ainda assim, este valor permanece significativamente abaixo da média nacional (1.742 euros), o que, segundo a consultora, “limita a capacidade do setor para atrair talento jovem e mais qualificado, que será imprescindível no contexto de uma agricultura cada vez mais digitalizada e de precisão, onde os dados imperam e a tecnologia domina”.
Assimetrias regionais, envelhecimento e desafios
O estudo conclui igualmente que a agricultura portuguesa apresenta fortes assimetrias regionais. O Alentejo concentra mais de metade da área agrícola (54,7%), mas apenas 11,3% da mão-de-obra, refletindo um modelo altamente mecanizado. Em contraste, regiões como Algarve e Oeste destacam-se pela elevada intensidade produtiva e maior necessidade de trabalho, com produtividades superiores a 5.200 euros por hectare.
O envelhecimento da força de trabalho é uma das tendências mais preocupantes: a idade média subiu de 46 anos em 1989 para 59 anos em 2023. Em paralelo, a mão-de-obra familiar caiu mais de 60%, evidenciando uma clara ausência de renovação geracional.
Apesar de uma redução de cerca de 20% nos acidentes de trabalho entre 2014 e 2023, a taxa de mortalidade mantém-se elevada, sublinhando a necessidade de reforçar as condições de segurança no setor.
Futuro mais tecnológico exige novas competências
O estudo conclui que a agricultura está a tornar-se cada vez mais tecnológica, integrando automação, sensores, inteligência artificial e serviços especializados.
Este novo paradigma exige trabalhadores com competências técnicas e digitais, num contexto em que a tecnologia substitui tarefas manuais e potencia ganhos de eficiência.
Assim, são identificadas sete principais tendências que deverão marcar o setor agrícola nos próximos anos: a dependência estrutural de mão-de-obra estrangeira; a Inteligência Artificial como núcleo da decisão agrícola; o setor mais orientado para eficiência e interdependências; a automação das tarefas repetitivas; o agricultor a tornar-se um operador tecnológico; a expansão dos serviços agrícolas tecnológicos; e o défice crescente de competências digitais.
Ao nível empresarial, o estudo considera prioritário investir na qualificação da mão-de-obra, no planeamento estratégico e na adoção de soluções de automação e segurança, valorizando simultaneamente os trabalhadores. No plano público, é indicado como fundamental assegurar políticas migratórias estáveis e previsíveis, reforçar a formação técnica e digital, promover a renovação segura do parque de máquinas e adaptar as políticas às especificidades regionais.
A consultora considera que a coordenação entre associações, prestadores de serviços e instituições de ensino, através de iniciativas como plataformas de gestão de mão-de-obra, serviços tecnológicos estruturados, conteúdos formativos acessíveis e sistemas de certificação, será decisiva para aumentar a eficiência, organização e qualificação do setor.









