Por: Nuno Mamede Santos | Instituto de Planeamento Regenerativo | Terracrua Design
O Dia Nacional da Sustentabilidade, assinalado a 25 de setembro, é uma oportunidade para aproximar as pessoas dos problemas concretos do território. No Alentejo, e particularmente no concelho de Odemira, isso implica falar do montado, da sua importância e das condições necessárias para assegurar a sua continuidade.
Apesar de a produção de cortiça ser a atividade mais reconhecida, está longe de ser a única. O montado sustenta a criação de gado, a apicultura, a produção de bolota, cogumelos e plantas aromáticas, a caça e o turismo de natureza. Protege o solo, alberga biodiversidade, armazena carbono e participa na regulação do ciclo da água. É também uma paisagem habitada e trabalhada, associada a conhecimentos, profissões e formas de vida que continuam a marcar o Alentejo. O seu valor ambiental, económico e social resulta precisamente desta combinação.
Mas importa não o romantizar. Não estamos perante uma floresta natural que permaneceu intacta até aos nossos dias. O montado é uma paisagem construída ao longo de gerações através da seleção das espécies que se regeneravam espontaneamente, da manutenção de sobreiros e azinheiras, da abertura de clareiras, do pastoreio, da agricultura e da extração de diferentes produtos.
Preservar o montado não pode, por isso, significar conservar uma fotografia idealizada do passado. Algumas práticas antigas continuam a fazer sentido; outras foram desenvolvidas para condições sociais, económicas e ambientais que já não existem. O desafio não é escolher entre tradição e mudança, é perceber o que continua a funcionar, o que deixou de funcionar e o que precisa de ser adaptado.
Atualmente, o montado enfrenta também alguns desafios. Falta de regeneração natural, envelhecimento das árvores, doenças, erosão, compactação do solo, mobilizações frequentes, cargas de pastoreio desajustadas e períodos prolongados de seca. Estes fatores atuam em conjunto, e, por isso, não existe uma causa única para o declínio nem uma solução única.
Parte do declínio do montado poderá estar relacionado com esta simplificação. Ao longo do tempo, aplicámos uma receita relativamente uniforme a territórios que são naturalmente diversos. Eliminámos estratos de vegetação, mobilizámos o solo de forma repetida e levámos a produção até zonas que deveriam cumprir funções de proteção, infiltração ou conservação.
A recuperação do montado deve, por isso, começar por uma leitura conjunta da topografia, da água, dos acessos, do solo, da vegetação e do modo de produção. Uma intervenção isolada pode resolver um problema local e criar outro a jusante. Desta forma, nem todas as intervenções exigem grandes investimentos. Algumas mudanças podem começar com observação, planeamento e uma alteração gradual da gestão.
A carga animal deve também ela ser ajustada à capacidade real da pastagem e à estação do ano. O pastoreio pode ser uma ferramenta importante de gestão, mas a permanência excessiva dos animais no mesmo local compacta o solo e impede a regeneração.
Além disso, é necessário proteger a regeneração natural, as linhas de água e a vegetação ripícola, evitando a circulação de máquinas nas zonas mais sensíveis. Estas áreas desempenham funções importantes de proteção, infiltração e abrigo.
Não se trata de substituir uma receita uniforme por outra. Um montado em Odemira, sob influência atlântica, não responde exatamente como um montado do interior alentejano. A profundidade do solo, a exposição, a geologia, a precipitação, a topografia e o histórico de gestão devem orientar cada decisão.
Por isso, não podemos pedir aos pequenos agricultores e proprietários que assumam sozinhos a regeneração de um sistema que presta serviços a toda a sociedade. Proteger o solo, infiltrar água, conservar biodiversidade, reduzir o risco de incêndio e manter uma paisagem habitada tem custos. Estas funções devem ser reconhecidas através de apoio técnico, políticas públicas adequadas e modelos de remuneração que valorizem os serviços prestados pelo território.
É necessário apostar na literacia das comunidades. Existe hoje muita informação técnica sobre o montado, mas essa informação nem sempre chega a quem toma decisões diariamente no terreno. Os pequenos agricultores e proprietários recebem recomendações dispersas, por vezes contraditórias, e nem sempre encontram espaços onde possam confrontá-las com a sua experiência.
É aqui que projetos culturais como “Histórias à Sombra do Montado” podem desempenhar um papel importante.
A banda desenhada não substitui o trabalho técnico, claro. Pode, contudo, levar o tema a escolas, cafés, associações e casas onde um manual especializado dificilmente chegaria. Pode explicar um problema sem começar por um regulamento e apresentar uma prática sem transformar a conversa numa aula.
Acredito que a pergunta se sempre fizemos assim, porque temos agora de fazer de outra maneira?” não deve ser evitada. Deve ser discutida com respeito pelo conhecimento de quem trabalha a terra, mas também com atenção ao que o próprio território nos está a mostrar.
No Dia Nacional da Sustentabilidade, a mensagem que importa deixar é simples: o montado não é uma paisagem garantida nem uma receita para aplicar uniformemente. É o resultado de decisões tomadas ao longo de gerações. A sua continuidade dependerá das decisões que tomarmos agora; da capacidade de voltar a distinguir vales, encostas, cumeadas e linhas de água; de recuperar o mosaico da paisagem; e de gerir cada lugar de acordo com as condições e funções que lhe são próprias.









