O grande desperdício tecnológico não está nos equipamentos. Está nos comportamentos

Mais de 360 mil aparelhos ganharam tempo extra de vida em 2025, cerca de 986 por dia. Os números do ano da iServices ajudam a perceber porque é que o impacto ambiental da tecnologia começa muito antes do ecoponto.

Green Savers

No Dia Mundial do Ambiente, a iServices apresentou os resultados de 2025 e o que mais de um milhão de clientes ensinaram sobre a forma como consumimos tecnologia: o maior impacto ambiental acontece muito antes de um equipamento chegar ao ecoponto.

Quando falamos de sustentabilidade na tecnologia, a conversa tende a começar no fim da história: nos resíduos eletrónicos, na reciclagem ou no destino dos equipamentos quando deixam de ser utilizados. Mas a realidade é que o maior impacto ambiental da tecnologia acontece muito antes de um smartphone chegar ao ecoponto. Acontece no momento em que decidimos substituir um equipamento que ainda poderia continuar a ser utilizado.

Os números ajudam a dimensionar o problema. Segundo o Global E-waste Monitor 2024, publicado pela UNITAR e pela ITU, agências do sistema das Nações Unidas, o mundo gerou 62 milhões de toneladas de resíduos eletrónicos em 2022 e poderá atingir 82 milhões de toneladas em 2030. O mesmo relatório alerta que o lixo eletrónico cresce a um ritmo cinco vezes superior ao da reciclagem documentada. Este é um problema real. Mas talvez a questão mais importante seja perceber porque chegamos tão cedo ao momento da substituição.

A iServices acompanha diariamente centenas de milhares de equipamentos ao longo do seu ciclo de vida. Em 2025, mais de um milhão de clientes recorreram aos serviços técnicos da marca e mais de 360 mil equipamentos, entre smartphones, tablets e computadores, tiveram a sua vida útil prolongada através de reparação, assistência técnica ou recondicionamento, o equivalente a cerca de 986 dispositivos por dia. Estes números permitem observar um fenómeno curioso: muitas das razões que levam um consumidor a substituir um equipamento não estão relacionadas com o fim da sua vida útil.

Em 2025, mais de 1 milhão de clientes recorreram à iServices e mais de 360 mil equipamentos tiveram a vida útil prolongada, cerca de 986 por dia.

Uma bateria degradada. Um ecrã partido. Uma porta de carregamento com mau contacto. Um problema de software. Em muitos casos, o equipamento continua perfeitamente capaz de cumprir a função para a qual foi adquirido. Ainda assim, existe uma tendência crescente para considerar que um dispositivo deixou de ter valor muito antes de ter deixado de ser útil.

Mãos a substituir a bateria de um smartphone aberto sobre a bancada
Uma bateria degradada é uma das razões mais frequentes para trocar de equipamento.

A lógica da substituição tem custos

Durante anos, a inovação tecnológica foi comunicada como uma sucessão permanente de novidades. Novos modelos, novas funcionalidades, novas gerações. Esse progresso trouxe benefícios inegáveis. Mas também contribuiu para consolidar uma ideia subtil: a de que a melhor solução para um problema tecnológico passa quase sempre pela substituição. Hoje sabemos que essa lógica tem custos económicos e ambientais significativos.

Cada equipamento novo exige matérias-primas, energia, água, transporte e processos industriais complexos. A maior parte da pegada ambiental de um smartphone, por exemplo, está concentrada na fase de produção e não na fase de utilização. Por isso, prolongar a vida útil de um equipamento durante mais um, dois ou três anos pode representar um benefício ambiental superior ao obtido através de muitas outras ações associadas ao consumo sustentável.

As pessoas escolhem soluções, não cálculos

A questão é que os consumidores raramente tomam decisões com base em cálculos ambientais. A nossa experiência demonstra precisamente o contrário. As pessoas não escolhem reparar porque querem reduzir emissões de carbono. Não escolhem um recondicionado porque calcularam a poupança de recursos naturais. Não escolhem prolongar a vida útil de um equipamento porque conhecem os princípios da economia circular. As pessoas escolhem soluções que resolvem problemas. Escolhem aquilo que é simples, rápido, conveniente e financeiramente racional.

Esta é talvez uma das lições mais importantes para quem trabalha na área da circularidade. A transição para modelos de consumo mais circulares não depende apenas de sensibilização ou de campanhas de comunicação. Depende da capacidade de tornar as alternativas sustentáveis suficientemente atrativas para competir com os modelos tradicionais. A economia circular ganha quando deixa de exigir esforço adicional ao consumidor. Ganha quando reparar é simples. Quando recondicionado significa confiança. Quando existe garantia. Quando o processo é transparente. Quando a experiência é tão conveniente quanto comprar novo.

É precisamente aqui que a sustentabilidade deixa de ser um conceito abstrato e passa a ser uma realidade operacional. Ao longo dos últimos anos, temos assistido a uma mudança gradual na forma como muitos consumidores encaram a tecnologia. O recondicionado deixou de ser uma solução de nicho para se afirmar como uma alternativa considerada por um número crescente de pessoas. A reparação deixou de ser vista apenas como último recurso e passou a integrar o processo normal de decisão de compra. Esta mudança não acontece por idealismo. Acontece porque começa a fazer sentido.

2025 em números

O impacto desta mudança é mensurável. Aplicando rácios médios conservadores de ciclo de vida ao universo de equipamentos intervencionados, a atividade da iServices em 2025 permitiu evitar cerca de 72 toneladas de resíduos eletrónicos, poupar aproximadamente 4,32 mil milhões de litros de água, evitar cerca de 18 mil toneladas de emissões de CO2 equivalente e preservar mais de 28 mil toneladas de recursos naturais. Face a 2024, os serviços técnicos cresceram 36%, as reparações 31%, as intervenções técnicas 75% e o recondicionamento 52%.

Em paralelo, a empresa reforçou a robustez da informação ambiental que suporta o seu reporte ESG. A pegada carbónica de 2025, calculada nos âmbitos 1, 2 e 3 do GHG Protocol, totalizou 61.909 toneladas de CO2 equivalente, das quais 99,99% decorrem de atividades da cadeia de valor. As emissões de âmbito 2, em abordagem market based, registaram uma redução de 72% face a 2024, beneficiando da transição da maioria dos contratos de eletricidade para energia verde e de uma frota totalmente elétrica. Estes números são relevantes. Mas representam sobretudo a consequência de algo mais importante: centenas de milhares de decisões individuais de consumidores que optaram por prolongar a vida útil dos seus equipamentos em vez de os substituir prematuramente.

A reparação e o recondicionamento não resolvem sozinhos o problema do lixo eletrónico. Mas continuam a ser das intervenções mais diretas e mensuráveis para reduzir o desperdício, e a sua eficácia mede-se equipamento a equipamento. A sustentabilidade não começa quando reciclamos um equipamento. Começa quando conseguimos utilizá-lo durante mais tempo. E talvez o maior desafio da próxima década não seja produzir mais tecnologia. Seja aprender a aproveitar melhor aquela que já temos.

Para o consumidor, quatro decisões simples

  • Trocar a bateria antes de trocar de equipamento, quando a perda de autonomia compromete a utilização.
  • Usar sempre capa e película de proteção, para reduzir o risco de danos físicos.
  • Fazer manutenção atempada perante sinais de falha, como carregamento instável, ecrã danificado ou problemas de som.
  • Considerar reparar ou comprar recondicionado antes de optar por um equipamento novo.

Conteúdo em parceria com a iServices. Artigo publicado na edição n.º 23 da revista Green Savers.

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