Por Tiago Morais, gestor de desenvolvimento de eólica flutuante em Portugal para a Iberbue Wind
Durante anos, a Península Ibérica olhou para o mar como uma fronteira energética por desbloquear. Hoje, esse horizonte deixou de ser uma opção estratégica para se tornar uma necessidade sistémica. A Europa enfrenta um momento crítico, marcado pela volatilidade geopolítica e por uma dependência energética externa que condiciona a competitividade industrial e limita a autonomia política. A Península Ibérica, historicamente marcada por níveis insuficientes de interligação com o sistema elétrico europeu, encontra-se particularmente exposta a essa vulnerabilidade.
Neste contexto, o debate já não pode ser enquadrado apenas como transição ecológica. Essa leitura tornou-se insuficiente. O que está em causa não é uma crise energética genérica, mas uma crise sistémica associada aos combustíveis fósseis e à dependência externa que estes continuam a impor. Como ficou evidente na mais recente edição do WindEurope Annual Event 2026, em Madrid, a resposta estrutural passa pela aceleração da eletrificação em larga escala, sustentada por produção renovável doméstica integrada com reforço das redes elétricas, armazenamento, flexibilidade e maior coordenação do sistema elétrico europeu suportada por cadeias de valor capazes de reduzir dependências estratégicas.
Neste contexto, e num cenário marcado pelo crescimento estrutural da procura elétrica associado à digitalização, centros de dados, eletrificação industrial e produção de hidrogénio renovável, a energia eólica offshore surge, assim, como uma componente cada vez mais relevante da futura infraestrutura elétrica europeia, capaz de apoiar a eletrificação industrial, o crescimento da procura elétrica e o reforço da segurança energética. Espanha e Portugal estão bem posicionados para afirmar um papel relevante neste movimento, não apenas pelo potencial eólico das suas costas atlânticas, mas também pela maturação progressiva de competências industriais, logísticas e tecnológicas que já constituem uma base industrial e tecnológica relevante.
Este movimento não é isolado. No início do ano, vários países do Mar do Norte formalizaram um pacto político e industrial para acelerar o desenvolvimento da eólica offshore, das redes interligadas e de modelos coordenados de investimento, com a ambição de transformar a região num polo integrado de produção de energia elétrica limpa à escala europeia. Embora os contextos industriais e geográficos sejam distintos, a experiência do Mar do Norte demonstra a importância de coordenação estratégica, previsibilidade regulatória e planeamento integrado de longo prazo. A mensagem é clara: onde há coordenação estratégica, existe maior capacidade de aceleração e execução de longo prazo.
Um ecossistema ibérico integrado
No caso ibérico, o setor offshore tem sido claro num ponto essencial: a necessidade de previsibilidade. Sem calendários definidos, volumes de leilão estáveis e sinais regulatórios consistentes, o investimento não avança à escala necessária. A cadeia de valor existe, mas exige enquadramento claro para se consolidar em projetos concretos. O compromisso industrial também existe, mas depende de previsibilidade regulatória e visibilidade sobre o pipeline de projetos para se materializar em investimento, emprego e capacidade tecnológica.
A escala adequada é, inevitavelmente, ibérica. Espanha e Portugal têm condições para estruturar um mercado offshore integrado, combinando capacidades complementares e uma logística coordenada. Os portos espanhóis podem desempenhar um papel central como plataformas de suporte para projetos em ambas as costas, enquanto os ativos industriais portugueses reforçam a base de engenharia e fabrico. A não concretização desta articulação arrisca dispersar talento e investimento para outros mercados europeus mais avançados na definição regulatória.
O caso de Portugal
Portugal entra numa fase decisiva do seu percurso offshore. As discussões recentes no WindEurope evidenciaram a importância de assegurar previsibilidade regulatória, clareza sobre o modelo de desenvolvimento do mercado e alinhamento entre objetivos energéticos, industriais e infraestruturais. O diálogo entre operadores e o Governo confirma que o desafio deixou de ser apenas tecnológico, passando também por integração sistémica e pela coordenação de longo prazo do sistema elétrico.
Apesar disso, Portugal dispõe de vantagens relevantes. A estratégia PORTOS 5+ enquadra a rede portuária como peça central de uma transformação industrial mais ampla, com portos como Viana do Castelo, Aveiro, Figueira da Foz e Setúbal posicionados como ativos com potencial estratégico para logística, montagem e operações offshore. Esta base infraestrutural pode ser determinante para integrar o país na cadeia de valor ibérica.
A experiência associada ao projeto WindFloat Atlantic contribuiu para desenvolver competências técnicas, operacionais e industriais relevantes no contexto da tecnologia offshore flutuante. Em paralelo, empresas portuguesas dos setores naval, metalomecânico e de engenharia começam a adaptar capacidades e cadeias de fornecimento às necessidades desta indústria.
A procura de eletricidade também está a mudar a natureza do mercado. A expansão dos centros de dados na Península Ibérica está a criar uma nova base de consumo intensivo e contínuo de eletricidade, alinhada com geração renovável em larga escala. Em paralelo, Portugal tem registado picos históricos de consumo elétrico, mantendo simultaneamente níveis elevados de incorporação renovável, o que confirma a aceleração da eletrificação da economia e a necessidade de nova capacidade elétrica de grande escala complementada por armazenamento e flexibilidade.
Esta evolução está alinhada com a ambição governamental de reduzir significativamente a dependência de combustíveis fósseis na próxima década, através de eletrificação, reforço de renováveis, armazenamento e gases renováveis. No entanto, o enquadramento futuro do setor eólico offshore continua em evolução, refletindo a necessidade de equilibrar objetivos de competitividade, integração do sistema elétrico, impacto tarifário e segurança energética de longo prazo. A consequência é evidente: num contexto em que o setor evolui rapidamente na Europa e em que os investimentos procuram mercados com maior previsibilidade e capacidade de execução, a clareza sobre o modelo de desenvolvimento do mercado em Portugal será determinante para mobilizar capital, capacidade industrial e integração eficiente no sistema elétrico. A transição energética e a transformação digital estão a convergir para a mesma infraestrutura de base. Neste contexto, a eólica offshore poderá assumir um papel estruturante nessa convergência, reforçando a integração ibérica e a ligação ao sistema elétrico europeu.









