O “Pinóquio” dos roedores: O nariz deste musaranho cresce durante o inverno, mas o seu cérebro diminui

Em 1949, o zoólogo polaco August Dehnel descobriu que os musaranhos tinham uma capacidade peculiar: reduzir e aumentar o volume do seu cérebro. Batizado com o nome “fenómeno de Dehnel”, é considerado uma forma de esses roedores limitarem ao mínimo o gasto de calorias na época mais fria do ano. E conseguem fazê-lo sem arriscarem a morte de células cerebrais.

Redação

Durantes os meses mais frios do ano, um pequeno roedor na ilha japonesa de Hokkaido encontrou uma forma de enfrentar o inverno, reduzindo o gasto de energia quando as fontes de alimento são mais escassas.

Em 1949, o zoólogo polaco August Dehnel descobriu que os musaranhos tinham uma capacidade peculiar: reduzir e aumentar o volume do seu cérebro. Batizado com o nome “fenómeno de Dehnel”, é considerado uma forma de esses roedores limitarem ao mínimo o gasto de calorias na época mais fria do ano. E conseguem fazê-lo sem arriscarem a morte de células cerebrais.

Essa habilidade, reversível, foi pela primeira vez descrita nos musaranhos Sorex araneus, mas foi já encontrada também no Sorex cinereus. Agora, uma nova investigação revela não só que também os musaranhos Sorex unguiculatus são capazes dessa proeza do mundo natural, como lhe acrescentam um toque único e até agora sem precedentes entre esse grupo de animais.

Num artigo publicado na revista ‘Proceedings of the Royal Society B’, investigadores da Toyo University e da Universidade de Hokkaido (ambas no Japão) revelam que durante o inverno a caixa craniana do S. unguiculatus diminui durante o inverno e volta a recuperar o tamanho normal na primavera. O que é novidade é o facto de o focinho dessa espécie, inversamente, aumentar durante o inverno e voltar a diminuir na primavera.

Os autores do estudo dizem que é a primeira vez, a nível mundial, que é documentado o “fenómeno de Dehnel inverso”, como o batizaram. Até agora, explicam, pensava-se que o crânio de alguns musaranhos diminuía de forma uniforme durante o inverno, mas esta investigação vem mostrar que pode aumentar e diminuir em diferentes direções.

O trabalho envolveu a análise das dimensões de 136 crânios de S. unguiculatus preservados no Jardim Botânico da Universidade de Hokkaido, tendo sido colhidos entre 1948 e 1988 nessa mesma região japonesa. Ao compararem a forma dos crânios com a época do ano em que os musaranhos foram adquiridos a equipa foi capaz de identificar mudanças sazonais.

Não se sabe ainda ao certo a razão de ser do aumento do focinho, quando o crânio e o cérebro diminuem, mas os cientistas têm algumas teorias. Uma delas sugere que um focinho maior poderá conter mais vasos sanguíneos que ajudam a aquecer o ar gélido inalado pelo roedor antes de chegar ao cérebro “mirrado”, permitindo ao animal manter-se alerta.

Outra hipótese aponta que um nariz maior poderá equivaler a uma maior capacidade para detetar odores, como de alimento, numa altura em que as fontes de comida são escassas e podem estar enterradas sob espessas camadas de neve.

Ou, dizem os investigadores, o aumento do nariz dos musaranhos pode ser uma combinação de ambas.

Ao contrário de outros pequenos mamíferos, os musaranhos não hibernam, pelo que, para sobreviverem aos meses mais frios do ano, tiveram de desenvolver adaptações únicas, como alterar a forma dos seus corpos.

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