O que a atual grande diversidade dos cães diz sobre a história da humanidade

Um novo livro, que será lançado no final de agosto, vem revelar os mistérios da relação milenar entre cães e humanos, e a mais importante da nossa espécie com um não-humano. O trabalho explora como a domesticação dos cães foi um “processo complexo” no qual tanto humanos como lobos (o antepassado do cão doméstico) terão participado, pelo menos inicialmente, como “parceiros em pé de igualdade”.

Filipe Pimentel Rações

Mais de 300 raças diferentes de cães são oficialmente reconhecidas a nível global, desde pequenos Chihuahuas que cabem numa mala de mão até a dogues alemães que quase chegam a 90 centímetros de altura.

A história da coexistência da nossa espécie com esses canídeos é longa, com registos arqueológicos de cães enterrados ao lado de humanos a datarem de há 14 mil anos. São considerados “o melhor amigo do homem”, figurando em peças de arte com milhares de anos, e nas mitologias, religiões e folclore de quase todas as culturas humanas.

Há quem fale mesmo de uma co-evolução, em que os cães ajudaram as sociedades humanas a desenvolver-se e os humanos, por seu lado, foram moldando as suas formas, favorecendo determinadas características para fins específicos: caça, guarda, transporte, companhia. É uma história de influência recíproca, que, de alguma forma, se tem vindo a deteriorar ao longo do tempo, mas que, ainda assim, persiste nos dias de hoje.

Um novo livro, que será lançado no final de agosto, vem revelar os mistérios desta relação milenar, e a mais importante da nossa espécie com um não-humano. Intitulada “First Dogs: Hunter-Gatherers and their Canine Companions from Prehistory to the Present” (“Primeiros cães: caçadores-recoletores e os seus companheiros caninos da Pré-História ao Presente”, numa tradução livre para português), é assinada pelo arqueólogo Peter Mitchell.

O trabalho explora como a domesticação dos cães foi um “processo complexo” no qual tanto humanos como lobos (o antepassado do cão doméstico) terão participado, pelo menos inicialmente, como “parceiros em pé de igualdade”. E mostra também o papel “absolutamente central” que as sociedades de caçadores-recoletores tiveram nesse processo, muito antes de os humanos terem aprendido a controlar as plantas ou outros animais.

Essa coexistência e interdependência levou ao surgimento de cães com traços especializados que correspondem às necessidades e aos ambientes das sociedades humanas com as quais esses canídeos viviam.

Mitchell diz que as ligações entre os cães e as pessoas que dependiam de plantas e animais selvagens como recursos “são antigas, diversas e profundas”.

Assim, da tundra gélida do Ártico às florestas húmidas dos trópicos, os cães passaram por transformações “notáveis” que refletem a diversidade das culturas dos humanos e dos ambientes em que eles vivem, dos cães corpulentos de pêlo grosso que puxam trenós no norte do planeta até aos canídeos esguios e adaptados ao calor das regiões equatoriais.

A diversidade morfológica dos cães foi também influenciada por preferências culturais. O arqueólogo mostra que, por exemplo, na costa noroeste da América do Norte, alguns grupos indígenas criaram pequenos cães de pelo lanoso que era usado para fazer mantos cerimoniais, o que, para Mitchell, revela um “exemplo único” de os cães a servirem outra função que não a caça ou o transporte.

No campo da genética, o autor explica que muitas linhagens antigas de cães hoje já não existem, tendo sido substituídas por raças europeias, que se disseminaram pelo mundo durante o período colonial. Contudo, traços dessas linhagens ancestrais originais podem ainda ser encontrados em algumas regiões, permitindo vislumbrar resquícios da história da profunda co-evolução entre humanos e cães.

Os cães não se limitaram simplesmente a seguir os humanos à medida que a nossa espécie se espalhava pela Terra: viveram connosco, desenvolvendo traços especializados que faziam deles parceiros indispensáveis numa multiplicidade de contextos ecológicos e culturais.

“O processo pelo qual os lobos-cinzentos se tornaram cães é contínuo, não sendo marcado por um único acontecimento decisivo. Foi provavelmente um processo longo e gradual”, explica Mitchell.

“A relação assim construída tem sido um esforço conjunto, embora seja uma relação em que, especialmente no Ocidente e ao longo dos últimos séculos, os humanos têm vindo a exercer um domínio cada vez maior na determinação da sua forma e direção”, conclui.

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