O que parece não é: Cientistas descobrem que algumas aves na Austrália têm genética de um sexo mas órgãos do outro

Um grupo de investigadores liderado pela Universidade de Sunshine Coast, na Austrália, descobriu que várias espécies de aves desse país têm os órgãos característicos de um sexo, mas os seus cromossomas apontam para o sexo oposto.

Filipe Pimentel Rações

Um grupo de investigadores liderado pela Universidade de Sunshine Coast, na Austrália, descobriu que várias espécies de aves desse país têm os órgãos característicos de um sexo, mas os seus cromossomas apontam para o sexo oposto.

Através do estudo de quase 500 aves de cinco espécies, incluindo cucaburras, pegas, pombos e lóris, perceberam que até 6% apresentava esse traço invulgar. Contudo, com base nos resultados, dizem que essa condição é mais comum em aves selvagens do que se pensava.

Dominique Potvin, principal coautora do artigo publicado na revista ‘Biology Letters’, afirma, em comunicado, que “isso indica que a determinação sexual nas aves selvagens é mais fluída do que pensávamos, e pode persistir até à idade adulta”.

A investigação baseou-se na análise de cadáveres que deram entrada em hospitais de vida selvagem na região sudeste do estado australiano de Queensland. Os cientistas examinaram os órgãos reprodutivos dos animais e testaram o seu ADN para determinaram o sexo genético.

Segundo Potvin, 92% das aves com essa inversão sexual “eram geneticamente fêmeas, mas tinham órgãos reprodutivos masculinos”.

Além disso, a equipa encontrou uma cucaburra (da família dos Alcedinídeos, tal como o guarda-rios) com cromossomas sexuais masculinos que tinha a estrutura reprodutiva de uma fêmea e que até mostrava sinais de ter posto ovos recentemente.

Os autores dizem que, embora essa condição seja conhecida em peixes, répteis e anfíbios, raramente é documentada em aves e mamíferos selvagens, pelo que argumentam que os resultados deste trabalho devem servir de referência para investigações posteriores sobre o fenómeno.

Diz a investigadora que “compreender como e porque é que a inversão sexual acontece é vital para a conservação e para melhorar a precisão das investigações sobre aves”. Isso é especialmente importante no caso de espécie ameaçadas de extinção, uma vez que um desequilíbrio entre os números de machos e de fêmeas pode afetar o sucesso reprodutivo das suas populações, incluindo declínio que podem pôr em causa a sua sobrevivência.

A equipa salienta também que o que descobriram vem revolucionar a forma como os cientistas identificam o sexo de uma ave, que habitualmente é feita com base nos marcadores genéticos, plumagem e comportamento dos animais. Clancy Hall, primeiro autor do estudo, afirma que a análise de amostras de ADN pode nem sempre refletir o sexo do animal, pelo menos no que aos seus órgãos sexuais diz respeito.

O que causa esta condição não é ainda claro, pelo que os cientistas dizem que são precisos mais trabalhos de investigação para tentar desvendar esse mistério biológico e para melhor compreender os seus impactos.

Ainda assim, sugerem que é possível que fatores ambientais, tais como a exposição a químicos que afetem a atividade endócrina das aves ou elevados níveis de hormonas associadas ao stress, pode estar a ter influência. Isto, porque a cucaburra geneticamente masculina foi encontrada numa zona agrícola periurbana, “onde tais químicos podem acumular-se”, argumentam.

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