Onda de calor marinha causou surto viral que matou mais de uma centena de meros nos Açores em 2024

Embora entre 2005 e 2025 tenham sido registadas várias ondas de calor marinhas nos Açores, foi entre 2023 e 2024 que se constataram os eventos com maior intensidade e frequência no arquipélago. Só em 2024, ocorreram cinco ondas de calor marinhas na região, com duas delas a durar mais de 100 dias.

Filipe Pimentel Rações

Em agosto de 2024, uma onda de calor marinha nos Açores, que levou a temperatura da superfície do mar a uns sem precedentes 27,3 graus Celsius, espoletou um surto viral que matou mais de uma centena de meros (Epinephelus marginatus), representando uma pressão significativa para essa espécie ameaçada.

Embora entre 2005 e 2025 tenham sido registadas várias ondas de calor marinhas nos Açores, foi entre 2023 e 2024 que se constataram os eventos com maior intensidade e frequência no arquipélago. Só em 2024, ocorreram cinco ondas de calor marinhas na região, com duas delas a durar mais de 100 dias.

As ondas de calor no mar, tal como em terra, podem agravar ainda mais as ameaças que os animais já enfrentam, com a perda de habitat e a sobre-exploração.

Um grupo de cientistas que tem acompanhado de perto estes fenómenos, liderado pelo instituto de Ciências Marinhas da Universidade dos Açores – OKEANOS, em colaboração com o Istituto Zooprofilattico Sperimentale delle Venezie (IZSVe), em Itália, diz que é muito provável que as ondas de calor marinhas de 2024 tenham criado as condições favoráveis ao surgimento de um surto de necrose nervosa viral (NNV), causada por um vírus que pertence ao género Betanodavirus, da família Nodaviridae.

Esse vírus afeta tecidos nervosos dos animais infetados, especialmente a medula espinal, o cérebro e a retina, o que leva à perda de capacidades motoras e de visão. Num artigo publicado em dezembro do ano passado na revista ‘Frontiers in Marine Science’, os investigadores dizem que foram reportados, entre agosto de 2024 e janeiro de 2025, 161 meros e também um badejo (Mycteroperca fusca) com sinais de NNV.

Desse conjunto, 70 peixes foram observados ainda vivos à superfície, 57 mortos e arrojados em áreas costeiras, 14 a flutuarem mortos e três vivos no leito marinho. Os animais vivos encontrados a flutuar à superfície apresentavam sinais consistentes com NNV, como natação em círculos, perda de equilíbrio, letargia e incapacidade para manter o corpo numa posição normal.

Um dos meros com sinais de necrose nervosa viral que a equipa encontrou no leito marinho açoriano. Vídeo cedido por: Inês Gomes.

 

Dizem os cientistas que este é o primeiro surto de NNV detetado no Atlântico Norte nesta espécie. À Green Savers, Inês Gomes, investigadora do Okeanos e primeira autora do estudo, explica que, embora a NNV seja comum em contextos de aquacultura que os peixes selvagens possam atuar como reservatórios, são “extremamente raros” relatos de surtos desse vírus em populações selvagens de peixes no Atlântico Norte.

Como tal, diz-nos a cientista que “é muito provável que, de facto, este seja o primeiro surto de NNV registado nos Açores”, especialmente porque, como causa grandes níveis de mortalidade em meros, se tivesse acontecido antes teria sido notado.

“A nossa equipa tem mais de 30 anos de monitorização costeira nos Açores e durante esse tempo não recebeu relatos de mortalidade em massa de meros, o que sugere fortemente que este é um evento novo”, afirma Inês Gomes. A investigadora destaca ainda que a grande maioria dos exemplares mortos tinha mais de 70 centímetros, sendo, portanto, indivíduos adultos e reprodutores, o que pode amplificar o impacto na população local.

Inês Gomes, investigadora do Okeanos.

Anna Toffan, responsável pelo laboratório de referência nesta doença e que também assina o artigo, acrescenta que análises moleculares reforçam a ideia de que se trata realmente de um evento recente e novo. A investigadora do IZSVe diz-nos que esses estudos apontam para uma “recente e única, ainda que desconhecida, fonte de infeção”, ao invés de um vírus que está em circulação há muito tempo.

Esta é também a primeira vez que se deteta NNV em badejos. Embora se trate apenas de um animal, o facto de se ter confirmado que a doença foi a causa da morte é bastante relevante. “Uma vez que o badejo é menos comum nos Açores do que o mero, mesmo um caso é importante, uma vez que mostra que o vírus está presente nesta espécie”, salienta Inês Gomes.

Defende a investigadora que isso torna clara a necessidade de uma “monitorização rigorosa” das comunidades de peixes costeiros, permitindo acompanhar a sua dinâmica e antecipar eventuais surtos.

Ondas de calor como “gatilho”

Uma das principais conclusões desta investigação é que o aumento repentino e significativo da temperatura do mar, causado por ondas de calor marinhas, serviu como “gatilho” para o surto de NNV. Anna Toffan explica que “água invulgarmente quente favorece a replicação do vírus” e causa stress nos peixes.

O vírus responsável por esta doença pode, inclusivamente, estar já a circular nas águas marinhas e até estar presente nos peixes, sem que haja sinais evidentes de doença. Aliás, a NNV foi já detetada em mais de 70 espécies de peixes e indivíduos selvagens podem mesmo servir como reservatórios naturais do vírus. No entanto, quando a temperatura do mar sobe rapidamente, o vírus consegue multiplicar-se de forma mais acelerada, “sobrecarregando o sistema imunitário do hospedeiro”, diz Toffan.

“Os peixes podem estar especialmente vulneráveis no final do ciclo reprodutivo, quando estão já fisiologicamente stressados e as suas reservas de energia são baixas”, detalha a investigadora. No entanto, detetar eventos de mortalidade massiva em juvenis ou larvas num ambiente tão vasto quando é o marinho não é nada fácil, pelo que, mesmo que tais eventos aconteçam, podem passar despercebidos.

Foram realizadas necropsias em 40 meros mortos. Foto cedida por: Inês Gomes.

Toffan assegura, no entanto, que o vírus que causa da NNV não aparece por causa de águas mais quentes. O vírus pode já estar a circular na água ou estar nos peixes, mas numa espécie de equilíbrio. As ondas de calor é que criam as condições ideias para que esse equilíbrio se perca, para a disseminação do vírus e, assim, para que os sinais de doença sejam mais facilmente detetados.

A equipa percebeu também que nem todo o arquipélago dos Açores foi afetado da mesma forma pelo surto de NNV. De acordo com os dados recolhidos, os grupos central e ocidental foram os mais afetados, com o maior número de meros mortos. Isso, apesar de as ondas de calor marinhas terem sido registadas praticamente em todas as ilhas açorianas.

Então, o que pode explicar que surto tenha apenas sido detetado nos grupos central e ocidental e não no oriental? Inês Gomes, do Okeanos, diz que a diferença poderá estar relacionada com a duração das ondas de calor marinhas, que variou entre os grupos de ilhas. Outro fator que considera relevante é a possível não chegada do vírus a algumas ilhas. Mesmo quando está presente, a sua propagação depende da densidade de hospedeiros, como o mero, explica, sendo que populações mais reduzidas poderão ter limitado a transmissão e o impacto do surto.

Nas Flores, no grupo ocidental, foi registada uma onda de calor marinha prolongada em 2024, que durou 73 dias, entre junho e agosto, enquanto no Corvo registou-se sete ondas de calor marinhas só nesse ano.

Inês Gomes sugere que as diferenças encontradas podem também ser explicadas pela densidade de meros. “Por exemplo, a Terceira [onde não se detetou nenhum caso] e São Miguel têm a maior densidade populacional humana dos Açores, com maior pressão da pesca e outros fatores de stress costeiros”, explica a investigadora. “Esses fatores podem ter já reduzido os números de meros e a densidade local, fazendo com que seja menos provável que o vírus se espalhe”, acrescenta, reconhecendo, no entanto, que é preciso mais trabalho de investigação para que se possa realmente conseguir perceber a origem do vírus e o porquê dessas diferenças entre os vários grupos de ilhas.

Origens (para já) desconhecidas

A doença NNV é causada por vírus conhecidos como betanodavírus. De entre esses, o Betanodavirus epinepheli, ou RGNNV, é o genótipo mais amplamente distribuído e o que frequentemente está associado a maior virulência.

Sabe-se que é capaz de infetar uma série de espécies marinhas de águas temperadas, incluindo meros e outras espécies do género Epinephelus, o robalo (Dicentrarchus labrax), a perca-gigante (Lates calcarifer), o calafate (Umbrina cirrosa) e outros, do Mediterrâneo à Ásia, passando pela região do Indo-Pacífico.

Há quase 20 anos que se tem vindo a documentar casos de mortalidade de meros e outros Epinephelus no Mediterrâneo associada a infeções de RGNNV em várias zonas desse mar, que é considerado o que mais rapidamente está a aquecer no contexto da crise climática. Esta investigação revela agora que eventos de mortalidade massiva causados por surtos de NNV estão também a acontecer no Atlântico Norte.

No entanto, e apesar de poder haver algumas semelhantes com o que se passa no Mediterrâneo, os cientistas dizem que não há, para já, dados suficientes relativos ao Atlântico Norte para traçar uma comparação entre as duas regiões. “Isso significa que não temos dados suficientes para inferir a origem da infeção” na área atlântica, explica Anna Toffan.

Anna Toffan, responsável pelo laboratório de referência na doença NNV, investigadora do Istituto Zooprofilattico Sperimentale delle Venezie (IZSVe) e coautora do artigo.

Ainda assim, há hipóteses em cima da mesa. Uma delas tem a ver com a água que os navios transportam nos lastros, que serve para aumentar a estabilidade das embarcações, e que recolhem num local e libertam noutro. Essas águas, diz a investigadora, podem conter “minúsculos organismos, como vírus”, que, dessa forma, são transferidos, ainda que sem intenção, de uma local para o outro.

“Outra potencial via é através de hospedeiros selvagens, como outras espécies de peixes altamente móveis, que podem transportar o vírus ao longo de grandes distâncias”, avança a cientista do IZSVe.

Um futuro ainda mais incerto

De acordo com a Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas, da União Internacional para a Conservação da Natureza, os meros estão classificados como “Em Perigo” na Europa e no Mediterrâneo, embora “Vulneráveis” a nível global.

Entre as principais ameaças à espécie estão a captura excessiva para fins comerciais e recreativos, mas também outros fatores que a tornam ainda mais suscetível ao risco de extinção. Os meros, embora possam viver até aos 50 anos, só atingem a maturidade sexual entre os cinco e os sete anos de idade, o que faz com que as populações podem ter dificuldade em compensar os impactos da captura.

Com as alterações climáticas a avançarem rapidamente, o aquecimento dos oceanos vem lançar uma camada de pressão acrescida sobre os meros, bem como sobre muitas outras espécies marinhas.

“Oceanos mais quentes podem aumentar a pressão sobre as populações de meros”, avisa Inês Gomes. “As ondas de calor marinhas podem tornar os peixes mais vulneráveis a doenças, mas também afetar o seu comportamento, o uso do habitat e a reprodução”, explica a investigadora.

“Uma vez que os meros crescem e amadurecem lentamente, as populações recuperam lentamente se se perderem muitos indivíduos”, avisa, pelo que defende que “proteger as populações e reduzir outras pressões será importante” para ajudá-los a lidar com as rápidas mudanças que estão a transformar os ambientes em que vivem.

Enquanto predadores, alimentando-se de peixes mais pequenos, de caranguejos e de polvos, por exemplo, os impactos de ondas de calor marinhas, como surtos virais, nas populações de meros podem repercutir-se por toda a teia trófica.

Enquanto predadores de topo, os meros alimentam-se de peixes, crustáceos e cefalópodes. Neste contexto, alterações ambientais associadas a ondas de calor marinhas, incluindo a ocorrência de surtos virais, podem gerar efeitos em cascata na teia trófica, afetando o equilíbrio do ecossistema”, explica Pedro Afonso, também do Okeanos e coautor do artigo. “Ao longo do tempo, isto pode levar a alterações na estrutura da comunidade e no equilíbrio geral do sistema”, acrescenta.

As ondas de calor são em grande medida provocadas pelo aquecimento do planeta gerado pelas alterações climáticas. Por isso, reduzir significativamente as emissões globais de gases com efeito de estufa seria a forma mais eficaz de mitigar os impactos nos meros, bem como noutras espécies. Mesmo assim, se de hoje para amanhã as emissões parassem, a Terra continuaria a aquecer ainda durante algum tempo, por causa da inércia do sistema climático.

Ainda assim, há coisas que se podem fazer e que podem ter efeitos positivos na espécie.

“Proteger os seus habitats e criar zonas interditas à pesca (áreas marinhas protegidas) em locais de reprodução, reduzir a sobre-pesca e manter um olhar atento sobre surtos de doenças como a NNV” são tudo “ações locais que podem fazer uma diferença real”, diz Pedro Afonso.

“Populações saudáveis e intactas têm muito mais probabilidades de sobreviverem a fatores de stress e de recuperarem posteriormente”, refere o cientista.

Pedro Afonso, investigador do Okeanos, coautor do estudo e responsável pelo programa de monitorização costeira – MoniCO. Foto: Okeanos / Facebook.

Além da sua importância ecológica, os meros são também uma espécie altamente valorizada em termos comerciais e recreativos. É por isso que o surto de NNV pode ter “sérios impactos” na pesca e no turismo de mergulho.

Para Pedro Afonso, “perdas repentinas de meros adultos podem reduzir significativamente a biomassa da espécie e atrasar a recuperação das populações”.

Com isso em mente, e graças ao trabalho científico feito sobre os meros nessa região, o Governo dos Açores declarou, em setembro de 2024, a proibição da pesca, comercial e lúdica, dessa espécie em águas açorianas “por motivos de interesse público”.

A interdição ainda está em vigor, algo que Pedro Afonso e a equipa consideram ser “crucial” até que uma nova avaliação científica permita reavaliar o estado da população de meros nos Açores. “Para assegurar isso, é urgente que o governo regional reconheça o valor de programas de monitorização costeira, especialmente num mundo em que as condições se alteram rapidamente”, diz o investigador.

“Tais medidas são essenciais para proteger esta e outras espécies vulneráveis, bem como os habitats costeiros, em particular num destino cada vez mais turístico como é os Açores”, acrescenta.

Apesar de algumas pessoas poderem achar que têm um aspeto pouco amigável, os meros são animais curiosos e tranquilos, e são vários os relatos de meros que se aproximam de mergulhadores e que interagem com eles. Há até quem diga que criam mesmo laços com os visitantes humanos.

Com vidas longas, se tal lhes for permitido, e com um crescimento lento, os meros são peixes que tendem a não afastar-se muito dos recifes que conhecem. Essa forte ligação ao habitat faz com que sejam uma espécie emblemática e relativamente fácil de observar, mas, também por isso, especialmente suscetível a alterações nos mundos marinhos em que vivem e às pressões que os humanos exercem sobre eles.

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