Ondas de calor marinhas encurtam janela de oportunidade para recuperação dos recifes de coral

O alerta é feito num relatório publicado pela Rede Global de Monitorização dos Recifes de Coral (GCRMN, na sigla em inglês), e que é considerado a análise mais abrangente até agora realizada sobre o estado desses ecossistemas marinhos.

Redação

À medida que as ondas de calor marinhas se tornam cada vez mais frequentes, a janela de oportunidade que os recifes de coral têm para recuperar entre cada uma delas está a tornar-se cada vez mais curta.

O alerta é feito num relatório publicado pela Rede Global de Monitorização dos Recifes de Coral (GCRMN, na sigla em inglês), e que é considerado a análise mais abrangente até agora realizada sobre o estado desses ecossistemas marinhos.

O trabalho lança um olhar sobre décadas de monitorização e investigação sobre o estado dos recifes, com dados recolhidos entre 1980 e 2024, durante milhões de observações feitas em mais de 36.000 locais de 124 países. Para os investigadores que o assinam, este é o estudo que mais claramente mostra como as alterações climáticas e pressões ao nível local estão a transformar os recifes de coral por todo o mundo.

“Após décadas de estudo de recifes de coral, o que mais me preocupa não é a atual perda de cobertura de corais duros, mas o facto de estarmos a deteriorar progressivamente as condições de que estes necessitam para recuperarem”, salienta Manuel González Rivero, principal autor.

“As alterações climáticas estão a causar ondas de calor marinhas mais frequentes e severas, mas as pressões locais, como má qualidade da água, pesca excessiva e o desenvolvimento costeiro estão a fazer com que os recifes sejam ainda menos capazes de lhes resistir”, avisa, acrescentando que “temos de fazer duas coisas ao mesmo tempo: reduzir as emissões a nível global e implementar medidas de conservação baseadas na ciência a nível local”.

O aumento da temperatura do mar provoca fenómenos de branqueamento, que podem ser fatais para os corais se forem duradouros e frequentes.

O calor marinho excessivo leva os corais a expulsarem as pequenas algas com as quais mantêm uma relação simbiótica e das quais dependem para se alimentarem. São as algas que dão cor aos corais, pelo que a expulsão é conhecida como “branqueamento”.

Se as condições não regressarem rapidamente ao normal e os corais não recuperarem as suas algas, então os corais podem mesmo morrer.

De acordo com este relatório, nas últimas décadas registaram-se vários grandes eventos globais de branqueamento de corais, e cada um deles resultou na perda de cobertura de corais duros, essenciais para a formação dos recifes. E os autores dizem que se observou apenas uma recuperação parcial antes de a onda de calor marinha seguinte voltar a atingi-los.

“Em tempos, os recifes de coral tinham décadas para recuperar após grandes eventos de branqueamento. Hoje, é uma sorte se tiverem cinco ou seis anos”, recorda González Rivero.

O investigador recorda que as ondas de calor marinhas sem precedentes de 2024, que afetaram muitos recifes de coral, podem este ano vir a sofrer golpes ainda mais duros, uma vez que se prevê que o El Niño de 2026 será um dos mais fortes de sempre. Assim, esses recifes terão tido pouco mais de um ano para recuperar.

“Isto está a criar uma espiral de declínio que se torna cada vez mais difícil de reverter a cada evento de branqueamento que passa.”

O El Niño é um fenómeno climático global caracterizado por temperaturas acima do normal das águas da superfície do mar no Pacífico central e oriental e por uma redução da força dos ventos alísios. Estima-se que o EL Niño deste ano será o mais intenso observado em mais de um século.

Ainda assim, o relatório mostra que, com tempo suficiente, os recifes de coral podem recuperar. Após o grande branqueamento global de 2016-2017, com uma perda estimada de 6,6% da cobertura de corais duros, uma recuperação semelhante registou-se entre 2017 e 2019.

A análise mostra que a atual frequência de eventos globais de branqueamento, a cada cinco ou seis anos, os recifes de coral continuarão numa trajetória de declínio da qual dificilmente conseguirão ser resgatados. Contudo, os autores do relatório dizem que, com “reduções ambiciosas” das emissões de gases com efeito de estufa, e com uma “gestão eficaz” das pressões locais, a cobertura global de corais duros poderá recuperar das perdas sofridas devido ao aquecimento marinho.

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