Existe a ideia de que os necrófagos, que se alimentam de animais mortos, seguem os predadores para que, quando esses capturarem uma presa, se possam alimentar dos restos.
Contudo, uma investigação recente mostra que, pelo menos no caso dos corvos, não é isso que acontece.
Num artigo publicado este mês na revista ‘Science’, um grupo de cientistas dos Estados Unidos da América (EUA), Alemanha e Áustria revela que os corvos não seguem os predadores para encontrarem alimento. Em vez disso, recorrem à sua memória de experiências passadas para procurarem comida nos locais onde os predadores costumam caçar as suas presas.
A investigação teve por base o acompanhamento, através de dispositivos de geolocalização, de 69 corvos-comuns (Corvus corax) e de 20 lobos (Canis lupus) no Parque Nacional de Yellowstone, nos EUA, durante cerca de dois anos e meio. A intenção era explicar como é que os corvos chegavam tão rapidamente aos locais onde os lobos apanhavam presas.

Com base nos resultados, os investigadores dizem que os corvos, em vez de seguirem os lobos, lembram-se dos locais onde é maior a probabilidade de encontrarem presas capturadas pelos canídeos selvagens e regressam diretamente a essas áreas para confirmar se têm algo que possam comer.
“[Os corvos] podem voar seis horas sem parar, diretamente até ao local onde a presa for caçada”, explica o primeiro autor do estudo, Matthias Loretto, da Universidade de Medicina Veterinária em Viena e do Instituto Max Planck do Comportamento Animal.
Assim, a equipa considera que essas aves usam memória espacial e capacidades de navegação para encontrarem alimento que está espalhado pela paisagem. “Os corvos podem cobrir grandes distâncias em voo e parecem ter uma boa memória, pelo que não precisam de estar constantemente a seguir os lobos para poderem tirar proveito dos predadores”, argumenta Loretto.
Os cientistas dizem que, ao adotar o ponto de vista da ave necrófaga, foi possível desvendar uma dimensão da vida dos corvos que era até agora desconhecida.
“Já sabíamos que os corvos conseguem lembrar-se de fontes de alimento estáveis, como aterros. O que nos surpreendeu foi que eles parecem aprender em que áreas as caçadas de lobos são mais frequentes”, detalha o investigador. Assim, com o tempo e com a experiência, e com uma dose de boa memória, os corvos parecem criar um mapa mental dos locais onde é mais provável encontrarem presas caçadas pelos lobos, sendo, por isso, desnecessário que tenham de seguir as alcateias para encontrar alimento.










