Relações sociais próximas e positivas entre diferentes espécies de animais, embora não muito comuns, fazem furor entre os humanos, especialmente nas redes sociais.
Vídeos de cães e coiotes ou raposas a brincarem como se fossem amigos de longa data ou um veado no meio das cabras como se tivesse problemas de identidade costumam ser “bestsellers” no que toca às interações nas plataformas online.
Contudo, há muito mais nesses encontros do que o mero “fator derrete corações”, especialmente quando envolvem alguns dos nossos parentes mais próximos em termos evolutivos: os primatas não-humanos. E pode neles encontrar-se respostas para algumas das questões que ainda não as têm sobre a própria história da humanidade.
Um grupo de cientistas lançou em busca de respostas para uma delas: “porque é que os humanos têm animais de estimação?”. Num artigo publicado na revista ‘Primates’, investigadores liderados pela Universidade de Oxford (Reino Unido) analisaram 427 registos do que descrevem com “interações amistosas” entre 88 espécies de primatas não-humanos e 127 outras espécies, das quais 55 não são primatas.
A principal conclusão é que macacos e grandes primatas frequentemente brincam com indivíduos de outras espécies, tratam-lhes da pelagem, abraçam-nos, transportam-nos de um lado para o outro ou até os adotam.
De entre os vários registos analisados, conta-se o caso de quase uma dezena de macacos Macaca arctoides a cuidarem do pêlo de um cão no templo budista de Khao Tao Mo, na Tailândia; o de um langur Semnopithecus priam a dar festas a um grande esquilo da espécie Ratufa macroura, no Parque Nacional Yala, no Sri Lanka; e vários de interações entre diferentes espécies de primatas, como o de um lémure-de-cauda-anelada (Lemur catta) a catar o pêlo de um lémure de outra espécie (Hapalemur meridionalis)em Madagáscar.

Cyril Grueter, primeiro autor do artigo, admite que os comportamentos observados e analisados não são uma correspondência exata com o que consideramos ser o ato de ter um animal de estimação.
Ainda assim, o docente da Faculdade de Antropologia da Universidade de Oxford, salienta que podem permitir vislumbrar “alguns dos alicerces evolutivos a partir dos quais acabou por surgir a relação de companheirismo entre humanos e animais”.
“Há muito que os humanos se consideram únicos no que toca a criar relações sociais próximas com outras espécies. O nosso estudo mostra que muitos primatas também exibem notáveis curiosidade, tolerância e cuidado para com animais que não são da sua espécie”, afirma o investigador.
Embora, na maioria das vezes, quando animais de espécies diferentes passam tempo juntos é para propósitos práticos, como segurança ou para facilitar a procura por alimento, os primatas mostram o que os autores do estudo dizem ser “uma curiosidade social e uma disposição para fazer amigos para lá da fronteira da espécie, algo que parece surpreendentemente familiar”.

A equipa nota que nem todas as interações documentadas e analisadas acabaram bem, pois a curiosidade e até as melhores das intenções podem resultar em brincadeiras muito brutas. Em 13 dos casos, o animal parceiro do primata acabou por morrer.
“Compreender porque é que algumas espécies estabelecem facilmente relações positivas com outras poderá ajudar a melhorar a gestão de grupos de mais do que uma espécie em zoos e santuários”, afirma Grueter.
Mas, para lá disso, “estes resultados fornecem novas perspetivas sobre a evolução da empatia, da flexibilidade social e da notável capacidade dos primatas para interagirem com animais para além dos da sua espécie”.









