Por João Garcia, Business Developer da Yunex Traffic Portugal
O Manuel sai de casa às oito da manhã. Tem 15 minutos de carro até ao trabalho, um percurso que atravessa seis cruzamentos com semáforos. Na maior parte dos dias, apanha quatro vermelhos. Em três deles, a via transversal está vazia. O motor fica ligado, a velocidade é zero, e os gases acumulam-se. O Manuel não pensa nisto como um problema energético, só pensa que devia ter saído mais cedo de casa. É que esses três vermelhos, repetidos todos os dias por milhares de condutores, traduzem-se em emissões de CO₂ e num desperdício energético que ninguém contabiliza, mas todos pagamos.
No Dia Mundial da Energia, falamos habitualmente de painéis solares, de carros elétricos, de edifícios com melhor isolamento. Raramente falamos de semáforos. E, no entanto, a forma como gerimos cada ciclo de verde e de vermelho numa cidade tem impacto direto no consumo energético, nas emissões de CO₂ e na qualidade de vida urbana. Uma rede semafórica mal calibrada é mais do que uma frustração para quem conduz, é um desperdício energético, multiplicado por milhões de cruzamentos e carros, repetido dia após dia e raramente reconhecido como prioridade. A eficiência energética na mobilidade urbana começa, precisamente, aqui.
O problema não está nos semáforos em si, está nos planos fixos que ainda regem grande parte da sinalização urbana portuguesa. Estes planos foram desenhados para um padrão de tráfego que raramente corresponde à realidade de hoje. As cidades mudaram e os fluxos tornaram-se imprevisíveis. Mas os semáforos, em muitos casos, continuam a trabalhar com a mesma lógica de décadas atrás: rígida e indiferente ao que se passa no trânsito.
Mas a eficiência energética não termina na fluidez do tráfego. A própria infraestrutura semafórica consome energia, e muito dessa energia é desperdiçada em equipamentos com décadas de uso. A arquitetura eletrónica dos controladores de nova geração, pensada para consumir menos e durar mais, representa um ganho direto na fatura energética dos municípios. Ao multiplicar estas poupanças pelo número de interseções de uma cidade, o impacto torna-se relevante para qualquer estratégia municipal de eficiência energética.
A transição energética nas cidades não acontece apenas quando se instala nova capacidade renovável ou se substituem frotas. Acontece também quando se para de desperdiçar o que já existe. Uma cidade que ainda gere o seu tráfego com planos fixos desatualizados está a desperdiçar combustível, tempo, qualidade do ar e dinheiro público.
Esta transformação não exige grandes obras nem longos horizontes de implementação. A digitalização da mobilidade urbana pode começar no cruzamento mais próximo de casa, com tecnologia testada. O que falta, muitas vezes, não é a solução, é decidir adotar soluções com consistência e visão de conjunto.
No fundo, a pergunta que o Dia Mundial da Energia nos convida a fazer é simples: estamos dispostos a continuar a aceitar que cada vermelho desnecessário representa energia desperdiçada e qualidade de vida perdida?
A infraestrutura que organiza o movimento das nossas cidades é também parte da resposta à crise energética e climática. A eficiência começa onde menos esperamos, às vezes, no cruzamento ao virar da esquina.









