Quando muitos pensam em animais a cuidar das suas crias, é provável que pensem mais em mamíferos ou aves do que em peixes. Contudo, mesmo nesse mundo nem todas as espécies deixam as crias à sua sorte, cuidando delas nos primeiros momentos de vida.
E, no que toca a cuidados parentais, não são apenas as mães as protagonistas. O filme “À Procura de Nemo” mostra o peixe-palhaço Marlin, um pai solteiro, a cruzar os oceanos e a enfrentar inúmeros perigos para encontrar o seu filho perdido, Nemo. Embora seja apenas um filme, uma dupla de cientistas diz que pode refletir muito mais o verdadeiro comportamento dos pais-peixes do que antes se pensava.
Uma investigação publicada na revista ‘Philosophical Transactions B’ vem mostrar que “os pais também importam” e que as crias que recebem cuidados dos progenitores machos acabam por se tornar adultos mais audazes e sociáveis.
O trabalho focou-se numa espécie de peixe da água doce, conhecido como esgana-gata (Gasterosteus aculeatus), que ocorre na América do Norte, na Ásia e na Europa, incluindo Portugal, nas bacias dos rios Minho, Âncora, Lima, Cávado, Vouga, Mondego, Lis, Tejo, Sado e Mira. De acordo com o “Livro Vermelho dos Peixes Dulciaquícolas e Diádromos de Portugal Continental”, de 2023, está “em perigo” de extinção devido sobretudo à destruição e fragmentação dos seus habitats, como a instalação de barragens, e também à poluição e à captação excessiva de água dos rios onde vive.
Nesta espécie, apenas os machos fornecem cuidados às crias, pois as fêmeas, após depositarem os ovos no ninho do progenitor, partem de imediato.
Através de experiências em laboratório, os investigadores Jason Keagy (Universidade Estadual da Pensilvânia) e Alison Bell (Universidade de Illinois em Urbana Campaing) descobriram que a audácia e sociabilidade das crias que receberam cuidados dos progenitores são traços comportamentais associados à expressão de genes específicos nos seus cérebros.
“A presença do pai durante os primeiros 10 dias de vida parece influenciar o comportamento dos peixes mais tarde nas suas vidas”, diz Keagy, que recorda que a maior parte da investigação feita no campo dos cuidados parentais tem tido como organismos modelos ratos, em que os cuidados maternais se destacam.
“Os esgana-gatas são uma das raras espécies em que os pais exclusivamente cuidam as crias”, acrescenta, dizendo que, por isso, são um bom exemplo para tentar compreender o que é que muda nas crias quando os progenitores são o principal, ou único, cuidador.
As experiências permitiram perceber que as crias que recebiam cuidados do pai durantes os 10 primeiros dias tendiam a explorar mais ambientes desconhecidos e a manter-se ativos mesmo perante ameaças do que as que não tiveram essa atenção paternal. Além disso, eram também as crias que interagiam mais com outros membros do grupo.
A nível cerebral, os peixes que receberam cuidados do progenitor nos 10 primeiros dias de vida apresentavam diferenças nos genes que estavam ativos, comparando com os outros peixes que não receberam os mesmos cuidados. Como a presença do pai era a única coisa que diferia de um grupo de crias para o outro, os investigadores concluem que os cuidados do progenitor afetam também o desenvolvimento dos cérebros dos pequenos peixes.
“Estes resultados sugerem que o cuidado paterno está associado a diferenças na regulação genética cerebral que afetam o desenvolvimento e funcionamento do cérebro, o que se traduz em diferenças no comportamento na idade adulta”, detalha Keagy.









