Organizações ambientalistas negam que pequenos reatores nucleares sejam uma solução energética em Portugal, alertando que são caros, lentos e arriscados, e dizem ser sem sentido qualquer opção por energia nuclear no país.
A propósito de um retomar de investimento na energia nuclear no mundo, a Lusa questionou as organizações ambientalistas Geota (Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente), Quercus e Zero, com todas a coincidirem na ideia de que a aposta deve ser nas energias renováveis e a condenarem o nuclear como solução para a falta de energia.
“Em Portugal, falar em substituir renováveis por nuclear simplesmente não faz sentido. O verdadeiro desafio é gerir melhor um sistema maioritariamente renovável, através de armazenamento, bombagem hidroelétrica, baterias, reforço das redes e interligações, gestão da procura e maior flexibilidade”, diz Miguel Macias Sequeira, vice-presidente do Geota, para quem seria uma “escolha irracional” e difícil de justificar a opção de pequenos reatores nucleares, os chamados SMR.
Miguel Macias Sequeira sublinha que Portugal dispõe de excelentes recursos renováveis e de soluções que podem ser implementadas agora, pelo que “seria pouco racional” desviar investimento, recursos técnicos e capacidade administrativa para uma tecnologia cuja eventual implantação comercial só poderá ocorrer muitos anos depois.
Para a Zero também não faria sentido gastar tempo e dinheiro a explorar a via nuclear quando existe algo que Portugal “já sabe fazer bem e mais depressa”, que é acelerar renováveis, armazenamento e eficiência energética.
E no entender da Quercus o nuclear deve continuar a ser investigado, nomeadamente para a saúde, mas não para produção de energia, devendo centrar-se a aposta no restauro dos ecossistemas, e apoio às comunidades energéticas, com produção em zonas urbanas artificializadas, como nas coberturas dos edifícios e das indústrias, por exemplo.
Mesmo a nível global a associação diz-se contra a aposta em reatores modulares, que não são atualmente uma alternativa válida, acrescentando a Zero que não são alternativa pelo menos “numa janela temporal relevante para a crise climática”.
Os SMR são ainda demasiado caros, lentos e arriscados, diz Francisco Ferreira, presidente da Zero, apontando para referências da autoridade alemã de radioproteção aos riscos dos SMR devido à maior dispersão geográfica e multiplicação dos locais onde é preciso gerir resíduos radioativos.
Miguel Macias Sequeira acrescenta que por unidade de eletricidade produzida os SMR podem gerar mais quantidades de determinados resíduos do que os grandes reatores. “Neste momento, os SMR são sobretudo uma promessa tecnológica, não uma solução disponível para a transição energética”, afiança.
Mas há hoje mais apoio político para o nuclear? Se a Quercus e o Geota não o valorizam a Zero considera-o sobretudo o resultado “de uma narrativa bem construída pela indústria nuclear” associada ao enquadramento geopolítico da guerra na Ucrânia e ao discurso de “soberania energética”.
Políticas à parte, o nuclear, grande ou modular, é sistematicamente a fonte de eletricidade mais cara entre as tecnologias disponíveis, frisa Francisco Ferreira. E produz resíduos, neste momento mais de 448 mil toneladas de combustível irradiado armazenado a nível mundial, segundo dados da Agência Internacional de Energia Atómica.
A Quercus fala também do lixo radioativo, a guardar “durante milhares de anos”, aponta a segurança, recorda Chernobyl e Fukushima, que contrariam a “narrativa de segurança”, acrescenta “os enormes problemas ambientais a nível mundial” da mineração, incluindo em Portugal, onde antigos mineiros morreram com cancro e outros têm problemas de saúde.
E o Geota, que fala também do problema dos resíduos radioativos, conclui que em Portugal, com sol, vento, hídrica, capacidade de armazenamento e um enorme potencial por explorar na eficiência energética, “não existe qualquer racionalidade em abandonar ou atrasar esse caminho para iniciar agora uma aventura nuclear cara, lenta e desnecessária”.









