Um grupo de cientistas, liderado pela Universidade do Porto, alerta que os pesticidas põem em risco a saúde e o funcionamento dos ecossistemas agrícolas. Os efeitos desses químicos tóxicos podem ser agravados pelas alterações climáticas, criando situações ainda mais preocupantes.
Liderada por Anastasios Limnios, estudante de doutoramento da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP), a investigação passou pela análise de espécimes de diferentes tamanhos de lagartixas-de-bocage (Podarcis bocagei). Os animais foram capturados numa área em Vila do Conde, no norte do país, na qual nunca foram usados pesticidas.
As lagartixas-de-bocage são encontradas frequentemente nos muros de campos agrícolas e têm um metabolismo que dependente fortemente da temperatura do ambiente. Por isso, são fundamentais para perceber de que forma é que a força combinada de pesticidas e calor afeta a vida selvagem que habita nas áreas agrícolas.
Em laboratório, no Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (CIBIO), da Universidade do Porto, os animais foram divididos em dois grupos: um alimentado com larvas de tenébrios (Tenebrio molitor) contaminados com glifosato, o pesticida mais usado em todo o mundo, e um alimentado com tenébrios que não foram expostos a essa substância tóxica.
Além disso, as lagartixas foram submetidas as diferentes temperaturas (18, 25 e 29 graus Celsius). O objetivo era perceber a reação do glifosato no organismo dos animais com a subida da temperatura, simulando os efeitos das alterações climáticas.
Os investigadores perceberam que a combinação do glifosato com o calor faz com que as lagartixas gastem mais energia para tentarem livrar-se do tóxico, energia que poderia ser usada no crescimento e na reprodução, pondo em risco não apenas a sobrevivência do indivíduo, mas também o futuro da sua população.
Miguel Carretero, principal coautor do estudo e orientador do doutoramento de Anastasios Limnios, diz que, em condições extremas, “aqueles efeitos podem provocar não só a extinção da espécie, mas também a perda dos serviços que as lagartixas prestam ao ecossistema, como o controlo de pragas”. Acontecendo isso, aumenta a necessidade de recorrer ainda mais a pesticidas, sublinha o investigador, perpetuando-se um ciclo vicioso.
Os animais maiores foram os que mostraram maiores reduções da energia disponível resultante da intoxicação com glifosato. Esses são também os que mais contribuem para o futuro das populações, pois, devido ao seu tamanho, têm taxas mais elevadas de sucesso reprodutivo. Como são mais vulneráveis aos efeitos do glifosato combinados com o aumento das temperaturas, o desaparecimento das lagartixas maiores pode pôr em risco a continuação das populações das quais fazem parte.
“Esta evidência é valiosa para futuras avaliações de risco e para priorizar a conservação de espécies cujos processos bioenergéticos podem ser particularmente sensíveis à exposição ao glifosato”, escrevem os investigadores no artigo.
Mas o perigo não se limita às lagartixas, nem a uma só espécie. Diz Miguel Carretero que afeta a “dinâmica dos ecossistemas agrícolas no seu conjunto, dos quais tanto precisamos”. Ainda assim, considera que o abandono total dos pesticidas não é solução.
“A solução não poderá, porém, passar pelo abandono absoluto do uso de pesticidas, uma vez que estes continuam a ser necessários para controlar as pragas das colheitas, mas sim o seu uso equilibrado, que evite a intensificação agrícola, a qual só pode acarretar novos custos (mais pesticidas para controlar os insetos que as lagartixas não consomem) para o agricultor, e também para a saúde dos consumidores, uma vez que têm sido descritos efeitos cancerígenos, para os humanos, do consumo de alimentos contaminados com glifosato.”
Para o biólogo e professor da Universidade do Porto, “só uma agricultura e um consumo responsáveis podem parar esta corrida”, e acrescenta que este estudo “permitiu fornecer informação científica validada para que todos – agricultores, consumidores e autoridades – tomem as melhores decisões”.









