Várias cidades europeias têm planos para alcançar a neutralidade climática até 2030, mas o foco desses esforços pode estar a incidir sobre as dimensões menos prioritárias e que tornarão mais difícil chegar a uma verdadeira descarbonização.
Investigadores do Centro Conjunto de Investigação (da Comissão Europeia) e do Instituto Potsdam de Investigação sobre os Impactos Climáticos (PIK) analisaram os planos de ação climática de 103 cidades europeias, incluindo 22 capitais, que têm como meta principal a neutralidade carbónica até ao final da década.
Um dos desafios para lá chegar são as emissões residuais, aquelas que persistem após todas as soluções viáveis de redução – do ponto de vista económico, social e técnico – terem sido implementadas.
Para responder a esse desafio, todas as estratégias municipais contemplam abordagens de remoção temporária de dióxido de carbono (CO2) através dos solos e plantas, como a plantação de árvores e os solos como sumidouros de carbono.
Os investigadores dizem que a dependência dessas abordagens levanta preocupações no que toca à permanência e disponibilidade de terrenos em espaços urbanos, onde, salientam, a área disponível para espaços verdes, que permitiriam esse tipo de soluções, compete com outros setores, como a habitação.
Publicado na revista ‘Nature Climate Change’, o estudo avança também que cerca de 40% dos municípios olha para os créditos de carbono como a solução e 32% consideram abordagens de remoção permanente, como a produção de bioenergia com captura de carbono, biochar e soluções descentralizadas de captura e armazenamento de CO2.
Os investigadores dizem que os planos tendem a ser pouco precisos e detalhados no que toca à viabilidade e modo de implementação das soluções de descarbonização que apresentam, o que pode levar a défices de eficácia, podendo até pôr em causa as metas assumidas.
“Estas cidades estão a seguir metas de descarbonização extremamente ambiciosas, o que deve ser aplaudido e deve servir de inspiração para outras”, diz Quirina Rodriguez Mendez, investigadora do PIK e coautora do estudo.
Contudo, avisa que “estão a usar critérios vagos para determinar de onde virão as emissões residuais e podem não ter considerado devidamente opções que eliminariam precisamente essas emissões”.
A equipa de cientistas estima que a maioria das emissões residuais das cidades europeias abrangidas por este estudo virão dos setores da energia e dos transportes, apesar de serem consideradas facilmente reduzíveis.
Por isso, dizem que os líderes municipais devem concentrar as emissões residuais em setores cuja descarbonização seja realmente um desafio, e também que devem ser implementadas medidas do lado da procura (dos consumidores e munícipes), que podem permitir reduções nas emissões residuais entre 40% e 80%.
Contas feitas, os investigadores acreditam que alcançar e manter a neutralidade carbónico poderá exigir que as cidades complementem abordagens de remoção temporária de CO2 com soluções mais permanentes. Mas para isso acontecer é preciso “clareza regulatória”, desenvolver infraestruturas e garantir apoio público, especialmente no que toca a remoções permanentes de carbono.









