Políticas climáticas ficarão aquém do desejado se apenas se olhar para como a energia é produzida e não para como é usada

Equipa de investigadores liderada pelo português Nuno Bento, do ISCTE, apresenta conjunto de três medidas que os Estados podem aplicar para quebrar estes padrões de consumo excessivo e para promover a segurança energética e a justiça social.

Redação

As políticas climáticas e energéticas globais têm-se focado principalmente na expansão do fornecimento de energia limpa de fontes renováveis, mas muito menos atenção tem sido prestada à forma como essa energia é consumida, como em transportes, nas casas e na indústria.

A conclusão é de um estudo publicado recentemente na revista ‘Science’, liderado pelo investigador português Nuno Bento, do Centro de Estudos Socioeconómicos e Territoriais (DINÂMIA’CET) do ISCTE.

Os autores apontam para um “grande desequilíbrio global” no que toca ao consumo de energia. Se, por um lado, apenas 2% dos consumidores a nível global usa, em média, mais de 300 gigajoules por pessoa todos os anos e representa um terço do consumo mundial de energia, por outro, metade da população humana do planeta usa somente entre 15 e 18 gigajoules por pessoa anualmente, cerca de 10% do consumo global.

Para quebrar estes padrões de consumo excessivo, e para promover a segurança energética e a justiça social, os investigadores defendem que três grandes metas que os países podem seguir.

Uma é triplicar o ritmo anual de melhoria da eficiência energética, aumentando a redução da intensidade energética final do PIB para 4% ao ano. Outra é triplicar o ritmo da eletrificação, através do aumento da contribuição da eletricidade para o consumo final de energia por 4% ao ano, até alcançar os 33% em 2035. A terceira meta está relacionada com a tributação de consumos energéticos excessivos, acima dos 300 gigajoules por pessoa por ano.

Os investigadores consideram que a aplicação destas medidas permitirá não apenas reduzir as emissões de gases com efeito de estufa associadas ao consumo energético excessivo, mas também promover a segurança energética do mundo e a justiça social.

Segundo o estudo, taxar o que os autores apontam como sendo “usos luxuosos de energia”, tais como jatos e iates privados, ajudará a reduzir o consumo excessivo, ao mesmo tempo que, estimam, se conseguirá gerar entre 0,2 e dois biliões de dólares por ano para expandir o acesso à energia e para apoiar investimentos em energias mais limpas.

A equipa liderada pelo investigador português Nuno Bento considera que as três medidas que apresentam foram concebidas para se reforçarem mutuamente: mais eficiência ajuda a limitar o consumo geral; mais eletrificação permite um fornecimento mais eficiente de serviços energéticos; e taxar o consumo excessivo pode, ao mesmo tempo, reduzir a pressão sobre os sistemas energéticos e ajudar a financiar uma transição mais justa.

Em suma, os investigadores acreditam que, ao invés de tratá-la como um mero efeito colateral de outras políticas, como as que almejam a descarbonização, a redução da procura e do consumo de energia deve ser encarada como um objetivo de políticas públicas de direito próprio.

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