População de sisão em Portugal cai 90% em 20 anos. Se nada for feito, extinção da ave pode acontecer “em breve”

“Desde o 1.º Censo Nacional de Sisão em 2006, cada edição tem revelado um agravamento da situação da espécie”, diz, em nota, João Paulo Silva, investigador e coordenador do Censo Nacional de Sisão.

Redação

Desde 2006, a população nacional de sisão (Tetrax tetrax), uma ave associada a zonas agrícolas e a estepes, sofreu um declínio de 90%, de acordo com o quarto censo nacional da espécie.

Liderada pelo centro de investigação BIOPOLIS/CIBIO, a avaliação, publicada esta quinta-feira, estima que existam atualmente apenas 1.736 machos.

“Desde o 1.º Censo Nacional de Sisão em 2006, cada edição tem revelado um agravamento da situação da espécie”, diz, em nota, João Paulo Silva.

O investigador e coordenador do Censo Nacional de Sisão recorda que “já em 2022 a conclusão foi que o sisão estava em risco de extinção, e por isso foi classificado como Criticamente em Perigo”. Quatro anos depois, acrescenta, “a espécie continua em declínio, mesmo nas Zonas de Proteção Especial que deviam protegê-la”.

Com base nesses números, as organizações ambientalistas e conservacionistas SPEA-BirdLife, LPN, WWF-Portugal, Palombar, FAPAS, GEOTA e ZERO avisam que, se nada for feito com urgência, o sisão pode desaparecer do país “em breve”.

“Os resultados deste censo são alarmantes, mas infelizmente não são inesperados”, salienta Julieta Costa.

“Estamos a assistir ao desaparecimento do sisão perante os nossos olhos no curto prazo. Perante esta evidência, é incompreensível que o Estado português continue sem implementar medidas de conservação eficazes, falhando claramente as suas obrigações ao abrigo da Diretiva Aves da Comissão Europeia”, lança a responsável do Departamento de Conservação Terrestre da SPEA-BirdLife.

Em tempos, abundante nas planícies alentejanas, o sisão é hoje uma ave cada vez mais rara e difícil de observar. Dependente de sistemas agrícolas extensivos e de habitats abertos, nidifica no solo, tornando-se especialmente vulnerável à intensificação agrícola.

Explica a SPEA que a substituição de culturas de cereais em extensivo por culturas permanentes intensivas, como amendoal ou olival, e o aumento da intensidade do pastoreio e a redução das áreas de pousio, contribuem igualmente para a degradação dos locais de nidificação. Todos esses fatores têm causado “o colapso da população de sisão”, alerta a organização.

Outras aves estepárias prioritárias, a abetarda (Otis tarda) e o tartaranhão-caçador (Circus pygargus), apresentam também declínios muito acentuados devido a estas ameaças. O aumento das infraestruturas nos meios rurais, como as linhas elétricas, representam fatores de mortalidade acrescidos para a espécie, apontam os especialistas.

“As ameaças ao sisão e às restantes aves estepárias não só não têm fim à vista, como têm aumentado em diversidade e intensidade nos últimos anos, contra todos os esforços – nossos e dos muitos agricultores com quem colaboramos – para as minimizar. São aves frágeis que dependem de um ecossistema agrícola e da própria comunidade que o mantém, também sujeitos a inúmeras pressões que permanecem órfãs da atenção, preocupação, decisão e ação que lhes são devidas pelas autoridades nacionais. Se queremos travar a extinção destas espécies, temos de agir agora”, diz Estrela Matilde, Diretora Executiva da Liga para a Protecção da Natureza.

As organizações defendem que é “urgente” criar “um plano de emergência interministerial, com a participação das [Organizações Não-governamentais de Ambiente], agricultores, universidades e outros atores locais”, para proteger ativamente as áreas de reprodução do sisão, e outras aves estepárias, e para promover as áreas cerealíferas e pousios “com uma melhoria das medidas agroambientais e valorização da produção nacional”.

Além disso, dizem que é também fundamental o ordenamento de infraestruturas energéticas, a limitação do regadio em áreas críticas e a criação de uma rede de reservas e de um programa de conservação ex-situ, com a reprodução em cativeiro de sisão para posterior devolução à Natureza.

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