Porque é que Trump quer a Gronelândia: o segredo está no gelo que derrete



Donald Trump tem considerado “uma série de opções” para adquirir a Gronelândia, incluindo, segundo a Casa Branca, a possibilidade de recorrer às forças militares. Esta é, aliás, uma intenção que o Presidente dos EUA já manifestava há algum tempo. Mas porque é que Trump quer tanto a Gronelândia?

A Gronelândia, território semi-autónomo do Reino da Dinamarca, enfrenta um novo futuro perante as alterações climáticas. O aumento das temperaturas está a acelerar o degelo da camada de gelo da Gronelândia, a maior massa de gelo do Hemisfério Norte. O impacto, conjugado com o aquecimento dos oceanos, tem alterado os ecossistemas locais e a segurança alimentar tornando acessíveis recursos minerais valiosos que antes estavam bloqueados pelo gelo permanente, como terras raras, lítio, urânio e outros minerais essenciais para a tecnologia moderna e para a indústria militar. Estes recursos, cada vez mais estratégicos, explicam em grande parte o interesse norte-americano.

Além disso, o recuo do gelo está a abrir novas rotas marítimas no Ártico, que encurtam distâncias entre grandes mercados globais e oferecem oportunidades logísticas e comerciais inéditas.

Ainda que Trump tenha destacado questões de segurança nacional e rivalidade internacional, é impossível ignorar que o fator ambiental está no centro desta equação. O derretimento da Gronelândia altera o nível dos oceanos e impacta sistemas climáticos.

Entre oportunidades e riscos

À primeira vista, estas mudanças parecem abrir novas oportunidades económicas e estratégicas — que os EUA e outros países poderão querer aproveitar. Mas a realidade pode ser mais complexa do que isso.

“Existe um benefício militar percebido e um benefício económico percebido”, afirmou Paul Bierman, professor de recursos naturais na Universidade de Vermont à “Time” em março do ano passado. A Gronelândia encontra-se estrategicamente situada no Oceano Atlântico, entre os EUA, a Rússia e a China, e alberga uma grande quantidade de recursos naturais — minerais, petróleo e gás natural — que permanecem, em grande parte, por explorar. Mas Bierman acrescenta: “Na realidade, penso que ambas estas ideias são falsas.”

De facto, o Ártico está a aquecer a um ritmo três a quatro vezes superior ao do resto do mundo — e, no ano passado, a camada de gelo da Gronelândia perdeu 2,5 milhões de litros de água doce por segundo, mas para o docente, “existe esta fantasia de que as camadas de gelo vão desaparecer da noite para o dia e que todos estes minerais exóticos vão surgir onde antes havia mil pés de gelo” e “isso não vai acontecer”.

Paul Bierman afirma mesmo que o derretimento do gelo causado pelas alterações climáticas pode provocar deslizamentos de terra, capazes de destruir infraestruturas mineiras em segundos e que se a camada de gelo da Gronelândia derretesse por completo, o nível global do mar subiria 7 metros. “Mesmo uma fração disso terá impactos enormes na subida do nível do mar em todo o mundo”, afirma Rennermalm.

“Se não cuidarmos dessa camada de gelo, as estimativas apontam para perdas económicas na ordem de vários biliões de dólares, e isso vai superar qualquer mineral crítico”, acrescenta Bierman, sublinhando que “este é o elemento que não se enquadra no ciclo político de quatro anos.”

Num artigo de opinião thehill, Allison Agsten, diretora fundadora do Centro de Jornalismo e Comunicação sobre o Clima da USC Annenberg, também destacou os obstáculos criados pelo aquecimento global como a escassez de infraestrutura, os elevados custos laborais e condições climáticas ainda extremas. “Também permanece incerto se os EUA terão capacidade para processar os minerais extraídos”, alertou.

Para a colunista, quando o Presidente Trump afirmou na Assembleia Geral das Nações Unidas que as alterações climáticas são “o maior embuste alguma vez perpetrado contra o mundo”, o que ele realmente quis dizer foi que pretende impulsionar a extração e utilização de combustíveis fósseis nos EUA em benefício das indústrias que gastaram centenas de milhões de dólares para o eleger, a ele e o 119.º Congresso. Ao mesmo tempo, tentará ganhar um maior controlo numa região destabilizada pelas alterações climáticas, capitalizando essa própria instabilidade. “A segurança nacional está em risco, e há dinheiro a lucrar”, escreve.

“Trump não nega a existência das alterações climáticas — ele aposta nelas”, remata.

Por isso, o interesse de Trump estará profundamente ligado à transformação ambiental do Ártico, ao acesso a recursos estratégicos e à posição geopolítica única da Gronelândia. O “segredo” do seu interesse estará no gelo que derrete.

 






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