Portugal é um dos países mais dinâmicos da Europa no que toca à literacia do oceano, com iniciativas desde 1990. Contudo, nunca se avaliou “de forma consistente” a eficácia dessas mesmas ações.
A conclusão é apresentada num capítulo integrado no terceiro volume da obra “Ocean Literacy: The Foundation for the Success of the Ocean Decade”, publicado pela editora científica Springer Nature, uma obra global que reúne cerca de 250 autores de 42 países e regiões.
Um dos contributos portugueses está no capítulo “Ocean Literacy in Portugal: Three Decades of Experience and Innovative Educational Initiatives Supporting the Ocean Decade”, da autoria de Zara Teixeira (MARE – Universidade de Évora), Raquel Costa (Instituto de Educação, Universidade de Lisboa), Patrícia Conceição (Estrutura de Missão para a Extensão da Plataforma Continental), Claúdia Faria (Instituto de Educação, Universidade de Lisboa) e Laura Guimarães (CIIMAR – Universidade do Porto).
O texto faz o que as suas autoras descrevem como “o raio-X mais completo até à data da Literacia do Oceano na área da educação, em Portugal”, e recorda programas de referência como a Escola Azul, O MARE Vai à Escola, CIIMAR na Escola, Educar para uma Geração Azul ou o Coastwatch, que, segundo as investigadoras, “provam a enorme vitalidade nacional” nesta área.
“Esta experiência acumulada oferece pistas úteis para debates internacionais sobre como transformar conhecimento em ação e integrar a Literacia do Oceano nos currículos, alinhando se com recomendações das Nações Unidas”, dizem.
No entanto, expõem o que dizem ser “um diagnóstico preocupante”. A equipa afirma que “o país nunca avaliou de forma consistente se estas ações mudam efetivamente comportamentos”, estimando-se que essa avaliação tenha sido feita apenas para 30% das iniciativas.
“Portugal fez muito, mas só saberá se fez bem quando começar a medir, coordenar e transformar conhecimento em ação”, alerta Zara Teixeira, primeira autora do texto.
O estudo aponta ainda que, entre as várias dimensões da literacia do oceano, a do ativismo é a menos explorada, “correndo-se o risco de a literacia se tornar um exercício puramente teórico”, avisam as investigadoras.
Os “Living Labs” como solução para o litoral
No segundo volume da obra surge um outro capítulo de autoria portuguesa. Trata dos “Living Labs” (ou Laboratórios Vivos), considerados ecossistemas de inovação aberta que testam soluções sustentáveis em contexto real, integrando investigadores, empresas, cidadãos e decisores políticos na cocriação de respostas para os desafios locais.
Com o título “Living Labs: A Catalyst for Ocean Literacy and Sustainable Innovation”, é assinado por Cátia Marques, Ana Cunha e também por Zara Teixeira, todas do centro de investigação marinha MARE. O trio analisa “uma solução prática à luz dos conceitos da Literacia do Oceano, tendo por base o projeto Quinta Ciência Viva do Sal”, diz em comunicado.
Ao auscultar 60 atores-chave de salinas artesanais (de Aveiro a Castro Marim), o estudo confirmou que, embora as comunidades locais tenham um conhecimento profundo dos ecossistemas, falta-lhes acesso a ferramentas para transformar esse saber em inovação sustentável.
Além disso, é revelado que há ainda um desconhecimento sobre o verdadeiro papel de um Laboratório Vivo, muitas vezes confundido com meros espaços de comunicação ou resolução de problemas imediatos.
O capítulo defende que os “Living Labs” podem ser verdadeiramente fundamentais para o litoral português. “Ao unirem a ciência, as comunidades e as instituições políticas, tornam-se plataformas ideais para testar soluções sustentáveis em contexto real, mitigar conflitos estruturais e traduzir de vez a literacia em atitudes de conservação marinha e novas políticas públicas”, explicam as investigadoras.
A partir deste caso português, o capítulo abre também uma discussão com relevância internacional sobre o potencial dos “Living Labs” para impulsionar a literacia do oceano e promover comportamentos pró-oceano.









