Portugal precisa de uma estratégia clara para as Zonas de Aceleração de Energias Renováveis

Análise europeia alerta para fragilidades na implementação da RED III no país.

Redação

“Portugal continua sem uma estratégia clara e robusta para a identificação e priorização das Zonas de Aceleração para Energias Renováveis (ZAER), apesar de alguns avanços na transposição da Diretiva Europeia de Energias Renováveis (RED III)”.

Esta é a principal conclusão de uma análise recente realizada pelo European Environmental Bureau (EEB) e pela Climate Action Network Europe (CAN Europe), que avalia o estado de implementação desta diretiva em vários Estados-membros, incluindo Portugal. Esta avaliação da situação portuguesa contou com a colaboração do GEOTA – Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente, que partilha as preocupações das referidas entidades europeias.

A transposição da RED III encontra-se ainda em curso em Portugal. O projeto de Decreto-Lei que esteve em consulta pública integra alguns elementos positivos, nomeadamente a exclusão explícita da Rede Natura 2000 e de outras áreas protegidas, bem como a orientação para a instalação de projetos de energias renováveis em áreas urbanas, artificializadas ou já degradadas, em conformidade com os objetivos definidos a nível europeu.

No entanto, a análise do EEB e da CAN Europe identifica fragilidades relevantes que colocam em causa a eficácia e a credibilidade do processo. Nomeadamente, mantêm-se as incertezas quanto à forma como as ZAER serão identificadas na prática, destacando-se a possível ausência de uma integração sistemática de dados científicos atualizados, lacunas no mapeamento de valores naturais sensíveis – como áreas críticas para aves e outras espécies – e o risco de prevalecerem critérios essencialmente técnicos, como a proximidade à rede elétrica, em detrimento de uma avaliação ambiental estratégica, abrangente e preventiva.

O GEOTA alerta igualmente para a falta de clareza sobre a forma como os princípios fundamentais da diretiva serão operacionalizados em Portugal. Em particular, não existem ainda indicações concretas sobre como será assegurado o aproveitamento prioritário das áreas urbanas, artificializadas ou degradadas, conforme previsto na RED III.

Para Miguel Macias Sequeira, vice-presidente do GEOTA, “a expansão das energias renováveis é indispensável para responder à crise climática, mas só será bem-sucedida se assentar numa identificação rigorosa das áreas mais adequadas, baseada em informação científica robusta, na proteção dos valores naturais e no envolvimento efetivo das comunidades locais”.

Num contexto em que se aguarda o lançamento da consulta pública da Avaliação Ambiental Estratégica do Programa Setorial das Zonas de Aceleração da Implantação de Energias Renováveis (PSZAER – já com atraso face ao calendário europeu – o GEOTA considera que este processo constitui um momento determinante para reforçar a transparência, a participação pública e a qualidade das decisões. A definição das ZAER não pode ser tratada como um exercício meramente administrativo, devendo assentar numa base científica sólida e numa visão integrada do território.

O trabalho do EEB e da CAN Europe sublinha que a definição das ZAER é um dos elementos mais críticos da RED III. A sua correta implementação permitirá acelerar o licenciamento de projetos em locais apropriados, reduzir conflitos ambientais e sociais e garantir que a transição energética decorre de forma sustentável e alinhada com a proteção da biodiversidade. Num momento decisivo para a política climática europeia, este processo será determinante para assegurar uma transição energética rápida, justa e ambientalmente responsável.

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