Pressão social leva jovens peixes-palhaço a perderem barras mais depressa

Novo estudo “mostra que, ao combinar-se ecologia, evolução, genómica e biologia do desenvolvimento, podemos ir além da descrição de padrões de cor e compreender para que é que realmente servem”.

Filipe Pimentel Rações

Os humanos não são os únicos que mudam a sua aparência devido à pressão exercida pelos pares. Também os peixes-palhaço alteram o seu aspeto na presença dos “miúdos mais velhos”.

A conclusão é de uma investigação liderada pelo Instituto de Ciência e Tecnologia de Okinawa, no Japão, na qual é revelado que influências sociais e mecanismos biológicos fazem com que os peixes-palhaço-tomate (Amphiprion frenatus) percam mais rapidamente uma das listas verticais brancas que têm nos seus corpos quando convivem com indivíduos mais velhos. Os adultos dessa espécie têm apenas uma lista branca, logo atrás dos olhos.

Vincent Laudet, coautor do artigo que dá conta da descoberta, explica, citado em nota, que traços como as barras brancas dos peixes-palhaço “são frequentemente tratados como simples macas visuais, mas, na verdade, acarretam um rico significado biológico”.

Para o investigador, este estudo “mostra que, ao combinar-se ecologia, evolução, genómica e biologia do desenvolvimento, podemos ir além da descrição de padrões de cor e compreender para que é que realmente servem”.

Um estudo anterior tinha revelado que o peixes-palhaço contam as barras verticais uns dos outros para identificarem conhecidos e detetarem intrusos, pelo que se acredita que esses traços são fundamentais para a comunicação no mundo desses animais. No entanto, os investigadores estavam intrigados com o facto de um terço das espécies de peixes-palhaço (conhecem-se pelo menos 30) ter mais barras brancas quando são jovens e de as irem perdendo à medida que se tornam adultos.

“Queríamos perceber como e porque é que essa mudança acontece”, diz Laurie Mitchell, primeira autora do estudo.

Em experiências em tanques em laboratório, a equipa percebeu que os jovens peixes-palhaços perdem as barras mais depressa na presença de indivíduos mais velhos. No entanto, dizem que isso é contraintuitivo, pois as barras sinalizam a posição de um peixe na hierarquia do grupo: mais barras, mais novo, estatuto inferior; mais barras, mais velho, estatuto superior.

Quando eclodem dos seus ovos, os pequenos peixes-palhaço nadam até alto mar antes de regressarem a águas menos profundas para encontrarem uma anémona na qual possam viver. A equipa de cientistas acredita que se o jovem peixe acaba numa anémona que esteja já ocupada, então as duas barras brancas indicarão aos dominantes residentes que o recém-chegado é jovem e não representa uma ameaça, permitindo que se junte ao grupo na base na hierarquia.

No entanto, os investigadores sugerem que, quando são aceites no grupo, os jovens podem perder uma das barras brancas para começarem a subir na vida antes que outro peixe lhes passe à frente na corrida para o topo.

Por outro lado, se os jovens peixes-palhaços, depois da sua aventura em águas abertas, se instalarem uma anémona desocupada, então podem reter as duas barras durante mais tempo, quanto mais não seja para não parecerem uma ameaça a outros peixes-palhaço que possam estar de passagem.

“Não podemos estar ainda totalmente certos das razões exatas que levam esses peixes a perderem as suas barras mais lentamente, mas pensamos que é basicamente uma apólice de seguro”, explica, Mitchell. “Se um adulto invadir a sua anémona, há menos hipóteses de serem expulsos se mantiverem a sua aparência jovem com duas barras.”

O desaparecimento da segunda barra é causado pela morte das células que causa a cor branca, que por sua vez se pensa ser provocada por alterações hormonais resultantes de interações sociais entre os peixes mais jovens e os mais velhos.

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