Um relatório inédito sobre a qualidade do ar interior na Austrália revelou lacunas significativas nos dados, nas políticas públicas e nas medidas de proteção relativas ao ar que os australianos respiram dentro de casa — o que representa até 90% do seu tempo diário.
Intitulado The State of Indoor Air in Australia 2025, o relatório foi coordenado pelo Centro de Formação Avançada da Universidade de Tecnologia de Queensland (QUT) — o THRIVE, dedicado a sistemas de edifícios avançados para combater infeções transmitidas pelo ar. O estudo destaca os riscos para a saúde, bem-estar e economia associados à má qualidade do ar em espaços interiores como habitações, escolas, locais de trabalho, hospitais e edifícios públicos.
As autoras principais, a Professora Associada Wendy Miller e a Professora Catedrática Lidia Morawska, ambas da Escola de Ciências da Terra e Atmosféricas da QUT, analisaram 106 estudos revistos por pares, abrangendo dados de mais de 2.500 edifícios — uma amostra inferior a 0,03% do parque edificado nacional. As conclusões apontam para variações significativas nas concentrações dos poluentes analisados.
“Este relatório funciona como ponto de partida para a monitorização da qualidade do ar interior e como catalisador para um debate alargado entre sectores e jurisdições que conduza a uma estratégia nacional”, explica a Professora Associada Wendy Miller.
Já a Professora Lidia Morawska — reconhecida internacionalmente pelo seu trabalho sobre qualidade do ar e transmissão aérea de doenças — considera o relatório um passo essencial para o desenvolvimento de políticas eficazes.
“Há muito que se reconhece a ligação entre o ar interior e a saúde. No entanto, até agora, não existia um retrato nacional completo daquilo que os australianos respiram dentro de casa”, afirma
“Este estudo oferece a base científica necessária para informar políticas públicas, regulamentos e práticas de construção que protejam as pessoas da exposição a poluentes e agentes patogénicos transmitidos pelo ar”, sublinha.
Morawska, que integra a lista das 100 pessoas mais influentes do mundo da revista TIME pelo seu contributo na resposta à COVID-19, lidera o centro THRIVE e é Fellow Laureada da QUT.
Principais conclusões do relatório
O relatório revela que a qualidade do ar interior continua a ser amplamente negligenciada nos códigos de construção e nas estratégias de saúde pública da Austrália. A análise indica que menos de 0,03% dos edifícios do país foram objeto de estudos específicos sobre poluentes interiores, o que evidencia uma clara lacuna no conhecimento e monitorização deste problema.
Entre os poluentes mais frequentemente detetados encontram-se o dióxido de carbono, partículas finas, compostos orgânicos voláteis, dióxido de azoto e formaldeído. A presença e concentração destes poluentes variam significativamente consoante o tipo de edifício, a localização geográfica, o desenho dos sistemas de ventilação e os padrões de utilização dos espaços.
As conclusões do relatório seguem o apelo lançado por Morawska num artigo de 2024 publicado na revista Science, onde defende a criação de normas obrigatórias de qualidade do ar interior em edifícios públicos.
“O ar limpo em espaços interiores deve ser um direito básico, não um luxo”, defende.
“É urgente uma ação coordenada entre governos, indústria e sociedade civil para garantir ambientes interiores seguros, saudáveis e resilientes”, conclui.









