Procura por objetos decorativos e invulgares está a ameaçar este pequeno morcego cor-de-laranja

Um novo estudo revela que um pequeno morcego, de tons alaranjados e com manchas pretas nas asas, pode estar em perigo devido à procura por “objetos” de decoração curiosos. Trata-se da espécie Kerivoula picta, nativa do sudeste asiático, com um desenvolvimento lento, o que a torna especialmente vulnerável à sobre-exploração.

Filipe Pimentel Rações

O comércio de vida selvagem, sejam animais, plantas ou fungos, é fortemente alimentado pela vontade de alguns de possuírem algo que é exótico, raro, de aspeto invulgar e que os outros não têm.

Elefantes, pangolins, rinocerontes, primatas, aranhas e escorpiões, peixes e plantas de várias cores e feitios são apenas a ponta do icebergue de um mercado global que é legalmente regulado, ainda que as proteções recaiam apenas sobre uma mão-cheia de espécies. Os piores impactos na biodiversidade e no futuro das populações desses seres vivos são aqueles que não se conhecem, provocados pelo tráfico que ocorre às margens da lei cujo combate é tão difícil quanto tentar apanhar fumo com a mãos.

A internet e as redes sociais vieram dificultar ainda mais o trabalho das autoridades que procuram acabar com o comércio ilegal de vida selvagem, motivado por consumidores em países longínquos e endinheirados e possibilitado por redes criminosas organizadas.

Um novo estudo revela que um pequeno morcego, de tons alaranjados e com manchas pretas nas asas, pode estar em perigo devido à procura por “objetos” de decoração curiosos. Trata-se da espécie Kerivoula picta, nativa do sudeste asiático, com um desenvolvimento lento, o que a torna especialmente vulnerável à sobre-exploração.

É precisamente o aspeto singular que faz com que esse mamífero alado seja tão procurado como peça decorativa, seja todo o animal taxidermizado ou apenas o seu esqueleto. Foi esse comércio, que se estende muito para lá da região do sudeste asiático, que se pensa ter causado um declínio de 25% nos números da espécie nos últimos 15 anos. É por isso que a espécie foi recentemente incluída na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) com o estatuto de “Quase Ameaçada”.

Nesta foto, tirada numa loja na cidade de Ho Chi Minh, Vietname, dois morcegos Kerivoula picta (moldura superior) – uma cria em cima e um adulto em baixo – estão à venda como objetos de decoração, juntamente com outros animais. Foto: Nguyen et al., Global Ecology and Conservation, 2026.

Um estudo de 2024 revelou que, num espaço de apenas três meses, pelo menos 284 morcegos K. picta estavam a ser vendidos online nos Estados Unidos da América em plataformas como Amazon, eBay e Etsy. Desde então, e depois de campanhas lançadas por organizações não-governamentais, o eBay e a Etsy proibiram a venda de produtos derivados de morcegos nas suas plataformas em 2025.

Contudo, o comércio desses morcegos enquanto ornamentos continua, com uma estudo publicado recentemente na revista ‘Global Ecology and Conservation’ a mostrar que a espécie continua a ser “fortemente explorada” no Vietname, levantando preocupações quanto ao seu futuro.

Visitando mercados e lojas na cidade vietnamita de Ho Chi Minh City, os investigadores perceberam que o K. picta é a espécie de morcego mais popular enquanto ornamento, um comércio que tem com consumidores sobretudo turistas que estão de visita a essa região.

Os autores do estudo sugerem que todo os morcegos, tanto adultos como crias, podem estar a ser capturados no seu habitat natural. Por ser um animal solitário, de desenvolvimento lento e raro, avisam que mesmo um comércio de pequena escala, ao nível local, pode estar a pôr em risco a sobrevivência da espécie.

Embora não haja ainda dados concretos, a equipa diz que é possível que as populações de morcegos K. picta em redor da cidade estejam já a ficar esgotadas e que o comércio atual se baseie em espécimes antigos ou em morcegos capturados noutros locais.

“Já sabíamos que os [morcegos K. picta] estavam em apuros em toda a Ásia, mas desde que descobrimos o quão flagrante é o comércio no Vietname, estou ainda mais preocupado”, confessa, em nota, Chris R. Shepherd, da organização Center for Biological Diversity e membro do grupo de especialistas em morcegos da UICN.

O também coautor do estudo diz que “estes morcegos deveriam estar a prosperar na Natureza, não a serem comercializados em mercados e na internet como decoração”.

“É evidente que [os morcegos K. picta] precisam de proteções mais fortes face ao comércio internacional o mais rapidamente possível”, avisa.

Os investigadores dizem que essa espécie não é protegida pela lei do Vietname, por não ser considerada espécie ameaçada, e não está abrangida pela Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas de Fauna e Flora Selvagens (CITES), que tem como propósito assegurar que o comércio internacional de animais e plantas selvagens não representa uma ameaça para a sobrevivência dessas espécies.

Enquanto proteções mais fortes não forem concedidas, os morcegos desta espécie de aspeto curioso e apelativo continuarão sob grande pressão e o seu futuro em terreno incerto.

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